Técnica cirúrgica de transposição uterina visa preservar a fertilidade

Embora esteja sendo pouco utilizada, porque ainda é experimental, tem uma excelente aceitação. É indicada para pacientes com tumores na pelve que precisam de radioterapia, como câncer de reto, alguns sarcomas, por exemplo, tumor de vagina, mas que não tenham tumores comprometendo trompas, ovário e útero

Agora, o sonho de ser mãe não precisa ser comprometido no caso de um diagnóstico oncológico. Uma nova técnica cirúrgica, denominada transposição uterina, é capaz de preservar a fertilidade em mulheres que estão passando por um tratamento de câncer. Embora esteja sendo pouco utilizada, porque ainda é experimental, tem uma excelente aceitação. É indicada para pacientes com tumores na pelve que precisam de radioterapia, como câncer de reto, alguns sarcomas, por exemplo, tumor de vagina, mas que não tenham tumores comprometendo trompas, ovário e útero.

Em 2013, o cirurgião oncológico Reitan Ribeiro, do Instituto de Oncologia do Paraná – IOP, atendeu uma jovem paciente com câncer do reto, cujo tratamento consistia em sessões de quimio e radioterapia. Uma vez realizado, a jovem perderia a fertilidade, por esta razão, ela optou pela cirurgia. “Essa conduta terapêutica me chamou muito a atenção, porque eu sabia que o melhor para ela seria o tratamento com quimioterapia e radio, depois a cirurgia. Na época, fiquei pensando sobre o que poderia ser feito por essas pacientes que não aceitavam o tratamento em função da perda da fertilidade”, cita.

MOBILIZAÇÃO DE ÓRGÃOS
Após dois anos, o médico deu início à nova técnica cirúrgica, que se baseia em tirar o útero da pelve junto com o ovário para poder preservar a função reprodutiva. Basicamente, a técnica desenvolvida pelo oncologista consiste em “mobilizar o útero com os ovários e as trompas, soltando os ligamentos que tem na pelve, depois soltando o útero que está preso na vagina pelo colo. Então, usando dois vasos sanguíneos que vêm da parte mais alta do abdômen, perto do rim, e que vão para os ovários, é possível movimentar o útero, as trompas e o ovário que foram soltos, e, mantendo um suprimento sanguíneo adequado, colocá-los na parte superior do abdômen, perto do fígado e do estômago, preservando-os, para, depois de realizado o tratamento da paciente com a radioterapia na pelve, submetê-la a uma nova cirurgia para a recolocação anatômica dos órgãos”.

Para a realização do procedimento é necessária uma equipe experiente e conhecedora da técnica, composta por dois cirurgiões, um instrumentador e um anestesista, procedimento cirúrgico padrão.

A preservação da fertilidade é o objetivo maior e o principal benefício da cirurgia, mas os resultados positivos dessa técnica para as pacientes vão “desde a capacidade de ter óvulo, de engravidar e de levar a gestação a termo, sem precisar de outra pessoa para gestar, até uma vida sexual normal, com a parte hormonal e menstruação normais, indicativo de que elas poderão engravidar”, cita Reitan, e ainda esclarece que “pacientes submetidas à radioterapia da pelve não têm nenhuma chance de engravidar, zero possibilidade, sendo a única alternativa colocar um óvulo, embrião, e usar um útero de substituição, ou seja, outra mulher gestar”.

EVOLUÇÃO E RUMO A NOVO PROTOCOLO

Após passar por uma série de etapas, a técnica é comprovadamente segura e agora está iniciando um novo protocolo, que é o de avaliar a taxa de fertilidade, ou seja, verificar se as mulheres que fizeram cirurgia têm a mesma possibilidade de engravidar do que as que não têm câncer. Para Reitan, “Isso demora anos, porque as mulheres precisarão fazer a cirurgia, esperar pelas tentativas de engravidar, o que não acontece de imediato.

Desde o início até agora já foram realizadas 15 cirurgias, que em geral demoram entre uma hora e meia a duas horas, tanto para tirar o útero e colocar na parte de cima quanto para recolocá-lo novamente no lugar.

Uma das pacientes do Dr. Reitan é Laura Cristina Testa Thimoteo, que tinha 18 anos na época em que realizou a cirurgia, em 2019. “Descobri um câncer de reto e a única solução que tive para conseguir realizar meu sonho de ser mãe foi com um anjo chamado Dr. Reitan, que apareceu na minha vida e agradeço por ter aparecido. Fiz com ele a cirurgia de transposição uterina e minha esperança de realizar o sonho de toda mulher, que é ser mãe, poderá ser concretizado.” Agora com 21 anos, Laura, que está curada, faz acompanhamento a cada 6 meses para não correr riscos novamente. O sonho de ser mãe vai demorar um pouco, pois a jovem está em fase de conclusão de estudos. Com relação à fertilidade, está dentro da normalidade.

A empresária Carem Santos, de Porto Alegre, RS, recebeu, em 2018, o diagnóstico de lipossarcoma grau 2. Nesse mesmo ano e com 28 anos, fez a cirurgia de transposição uterina. “Sempre sonhei em construir uma família, mas por eu ser jovem não pensava nisso ainda, mas logo quando eu descobri o câncer e soube que o tratamento com radioterapia poderia me deixar estéril, fui em busca alternativas para meu caso e quando soube desse procedimento não tive dúvidas em tentar, afinal, o não eu já tinha, então fui atrás do sim. Venci o câncer, estou com a minha vida ativa normal. Depois dessa cirurgia voltei a sonhar em ser mãe, e eu vou ser, mas tudo no tempo de Deus”, diz. A cirurgia foi realizada no Hospital Erasto Gaertner, localizado em Curitiba.