Turma do Pererê: conheça o projeto criado por Ziraldo em 1960, um marco dos gibis no Brasil

Neste domingo (30 janeiro), comemora-se o Dia do Quadrinho Nacional. Data perfeita para relembrar o “Pererê”, primeira revista em quadrinhos genuinamente brasileira feita por um só autor, em 1960. E o quadrinista por trás do projeto era Ziraldo Alves Pinto, artista e escritor que completará 90 anos de vida em 2022

No fundo do mato-virgem nasceu o herói da nossa gente. Era preto retinto e filho da alegria do dia.

Não é Macunaíma, o herói sem nenhum caráter do modernista Mário de Andrade. Apesar da abertura deste texto inspirada no livro dele. Trata-se tão somente do Pererê, um menino negro, de uma perna só, que habita uma floresta, a Mata do Fundão. Ele se diverte escondendo objetos e aprontando travessuras.

Essa mata é cenário das histórias criadas pelo artista gráfico e escritor Ziraldo Alves Pinto, na segunda metade do século 20. Inspirado na figura folclórica do Saci, Ziraldo fez o seu Pererê, que estrelou a primeira revista em quadrinhos genuinamente brasileira feita por um só autor, em outubro de 1960; também foi o primeiro gibi a cores totalmente produzido no Brasil.

O título “Pererê” era publicado pela editora O Cruzeiro e durou até 1964. Neste Dia do Quadrinho Nacional, comemorado sempre em 30 de janeiro, nada melhor do que recordar o projeto pioneiro de Ziraldo, ilustrador que completará 90 anos de vida em 2021.

Em matéria publicada na edição de 23 de outubro de 2010 do jornal O Globo, o artista contou ao repórter Rodrigo Fonseca que o personagem surgiu em um contexto de nacionalização das HQs, muito forte nos anos de 1950. “Na época, a revistinha da Luluzinha e do Bolinha vendia horrores, tipo uns 150 mil por mês. A oportunidade de apresentarmos um personagem nacional para ‘O Cruzeiro’ veio numa sexta-feira. Virei a noite trabalhando no fim de semana e, na segunda, apresentei a revista pronta, com 32 páginas desenhadas a lápis”, recorda Ziraldo.

Ele destaca que o segundo número da revista “Pererê” já estava com uma tiragem de 150 mil exemplares. “E vendia. Muito. Mesmo assim, depois de uns 40 números, em 1964, disseram que não tinham mais interesse nela”, explica.

O material do Globo resume os motivos do cancelamento do gibi: políticos (Golpe de 64); e econômicos, pois enquanto a editora pagava US$ 1 à época por um jogo de fotolitos de HQs americanas, o Pererê custava US$ 10.

Mas o Pererê não era sozinho. Ele tinha uma turminha formada pelo jabuti Moacir, o coelho Geraldinho, a onça Galileu, o tatu Pedro Vieira, o macaco Alan e a coruja Professor Nogueira, inspirados em amigos do cartunista. Além da Boneca, Tuiuiú, a indiazinha e o bravo guerreiro Tininim.

Capa da edição de estreia (Foto: Reprodução)

RETORNOS
Em 1975, a Turma do Pererê ensaio o primeiro retorno numa linha de quadrinhos da editora Abril, mas só durou dez números. Pela mesma editora, segundo o site Universo HQ, a revista voltou em 1985, numa série de almanaques em formatinho.

Já no início da década de 90, novamente pela Abril, os personagens tiveram uma breve passagem pelas bancas.

Anos depois, em 2002, a Salamandra lançou o projeto “Todo Pererê”, proposta de publicar um volume de luxo a cada três meses. Seriam 22 álbuns. Mas a coleção ficou em apenas três edições.

“Quando vi o álbum da Mafalda, organizado pelo Quino (‘Toda Mafalda’), decidi que faria o mesmo com o Pererê. Como guardei todos os originais, decidimos organizá-los e passamos à fase de restauração, um trabalho delicado e moroso”, disse Ziraldo ao Estado de S.Paulo, em 19 de maio de 2002.

Segundo o Universo HQ, em 2003 a editora Globo lançou três coletâneas temáticas, que em 2010 foram reunidas em uma caixa especial que celebrava os 50 anos do Pererê.

MACUNAÍMA
Em texto publicado no Estadão de 17 de setembro de 1987, o jornalista Jotabê Medeiros (hoje um conhecido biógrafo) fez uma leitura aprofundada do personagem de Ziraldo.

“…Turma do Pererê é um retrato cativante e simples da alma brasileira, uma espécie de Macunaíma com alguns escrúpulos e muito otimismo”, disse Medeiros, detalhando que as histórias do gibi misturavam a imaginação das crianças urbanas com a mitologia caipira, matuta, do interior.

“Descontando a xenofobia gritante da primeira fase, o Pererê tem méritos indiscutíveis. Foi o primeiro grupo de personagens não-realistas, despreocupados com um certo naturalismo estético, a surgir no mundo das HQs nacionais”, escreve.

E, para Marcus Ramone, os personagens criados pelo cartunista Ziraldo “…conquistaram leitores de todas as idades com histórias bem brasileiras, mostrando virtudes e problemas sociais do País, além das raças, culturas e figuras do folclore tupiniquim, não deixando de lado as paixões nacionais, como o futebol e o samba”, em texto publicado no Universo HQ (1º de outubro de 2015).

Página do livro “A Turma do Pererê – 365 dias na Mata do Fundão”, da editora Globinho (Foto: Redação)

TV
A Turma do Pererê já foi adaptada para a telinha, em versão live-action (com atores de “carne e osso”) que foi exibida pela TV Brasil e TV Cultura, entre 2002 e 2004.

Hoje a série está disponível no site da TV Brasil (https://tvbrasil.ebc.com.br/aturmadoperere).

E tem também a Turma do Pererê em Motion Comics na TV Brasil Animada. A série narra uma sequência de pequenas histórias do Pererê em motion comics (quadrinhos animados). As histórias foram baseadas no caderno dominical “Quadrinhos”, do Jornal do Brasil, nos anos de 1970.

Pererê (figura em 1º plano) é inspirado no Saci (Foto: Reprodução)

ENTENDA

As histórias em quadrinhos começaram a aparecer no Brasil no século 19. Mas antes de se apresentarem em tiras, assumiam forma de charges e caricaturas.

No dia 30 de janeiro de 1869, o cartunista Angelo Agostini publicou a primeira história em quadrinhos brasileira, “As aventuras de Nhô-Quim, ou Impressões de uma Viagem à Corte”. O enredo trouxe 20 quadrinhos, divididos em três linhas, em que eram citados personagens como Nhô Quim, seu “cavalinho russo”, seu “fiel Benedicto”, um escravo, e seu rival, Manduca.

A partir de 1984, essa data passou a celebrar o Dia do Quadrinho Nacional.

Já o cartunista morreu no dia 23 de janeiro de 1910, aos 67 anos de idade, no Rio de Janeiro. Até hoje, é homenageado pelo Prêmio Angelo Agostini, promovido pela Associação de Quadrinhistas e Caricaturistas do Estado de São Paulo (AQC-SP).

**********Texto/Pesquisa: Cristiano Martinez, especial para www.correiodocidadao.com.br

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