Pavimentação da Boiadeira é esperança de prosperidade para região Noroeste do Paraná

Melhoria encerra novela que se arrasta há anos e será realizada com investimento de Itaipu Binacional, viabilizado pelo Governo do Estado

O pai do empresário Amarildo Mamprim da Silva chegou ao distrito de Santa Eliza em 1958. Ele ajudou a fundar a localidade que pertence à Umuarama e contava ao filho que nos anos 1970 havia nesse pequeno canto do Paraná em torno de 10 mil habitantes e uma frota de 22 táxis, espelho do sucesso do ciclo de ouro do café. A geada negra de 1975 pôs a termo essa trajetória e hoje em dia a localidade à beira da Estrada Boiadeira, a BR-487, tem apenas 2,5 mil habitantes, nenhum táxi e nem sinal de celular.

Mamprim tem 51 anos e é proprietário de uma loja de produtos agropecuários na comunidade, ao lado em um comércio de calçados e de um boteco onde aposentados jogam cartas em volta de uma mesa de latão, numa cena retirada do filme mais clichê sobre o povo simples do Interior. A Boiadeira, que é protagonista dessa história, é uma espécie de lembrança diária do que o vilarejo poderia ter sido se a pavimentação, prometida por diversas vozes, tivesse saído do papel há mais tempo.

“Falam desde que nasci em fazer esse asfalto. Santa Eliza poderia estar bem melhor se ele tivesse saído há alguns anos, até para compensar as perdas que tivemos com a geada. Algumas pessoas ficaram na comunidade, mas a maioria foi se afastando, procurando outras oportunidades. As pessoas venderam as suas propriedades, os jovens nos deixaram e ficaram só as grandes fazendas de pecuária e de cana-de-açúcar”, conta Mamprim. “É um lugar que convive com esse mito do asfalto da Boiadeira”.

Santa Eliza integra o trecho 3 do Lote 1 da revitalização da BR-487. A modernização envolve três partes com intervenções distintas entre Porto Camargo e Umuarama. As obras começaram em abril de 2019, mas dificuldades orçamentárias impuseram ritmo lento à modernização. Neste mês, para encerrar definitivamente essa novela, o Governo do Estado, o governo federal e a Itaipu Binacional acertaram um convênio de R$ 223,8 milhões para concluir a rodovia sem direito a “Vale a Pena Ver de Novo”.

“É mais uma iniciativa de grande impacto que conseguimos viabilizar no Paraná em parceria com a Itaipu. Essa obra se soma à Ponte da Integração Brasil-Paraguai, à duplicação da Rodovia das Cataratas, à ampliação da pista do Aeroporto de Foz do Iguaçu e recursos que ultrapassam R$ 1,4 bilhão injetados na região Oeste”, destaca o governador Carlos Massa Ratinho Junior. “O Paraná será um hub logístico da América do Sul. A Boiadeira faz parte desse planejamento”.

PROGRESSO

As lembranças de Carlos Francisco de Oliveira, 62, dono de um mercado e presidente do Conselho Comunitário de Santa Eliza, espécie de câmara de vereadores local, também passam pelo passado próspero ligado ao café e a espera pela consolidação definitiva da rodovia na região. A geada negra e os anos de poeira e barro forçaram mudanças de plano de vida para milhares de pessoas.

Nascido e criado em Icaraíma, município quase limítrofe ao Mato Grosso do Sul, ele conta que, mesmo com chão batido e os buracos, a Boiadeira era fundamental para o escoamento da produção de café da região. Nessa época (anos 60 e 70), esse canto, chamado de Norte Novíssimo (contraponto ao Norte Velho/Pioneiro, de Londrina), já integrava o time de 192 municípios paranaenses dedicados direta ou indiretamente à cultura. Apenas Umuarama contava com 150 mil habitantes – atualmente são 110 mil.

“Vendíamos café em Umuarama porque Icaraíma nem sequer tinha beneficiadora, precisava chegar nesse entreposto. E todo o comércio era feito nessa dificuldade. Era uma eternidade para levar o produto até o destino, fora a sorte que precisava ter com as condições do tempo porque a ligação sempre foi marcada pelo areião”, explica. “O sonho do povo da região é essa Boiadeira asfaltada”.

A esperança de pavimentação atravessou os anos 1980, 1990, 2000 e depois de 2010 foi renovada com a conclusão do Lote 3 da Boiadeira entre Cruzeiro do Oeste e Campo Mourão. O extremo, no entanto, ainda esperaria mais um pouco. Segundo Mamprim, as estacas de madeira que demarcam o trajeto do asfalto novo estão na comunidade há tanto tempo que viraram parte do cotidiano, como se fossem esculturas definitivas de um museu a céu aberto na planície verde do Noroeste do Estado.

“Santa Eliza está acostumada a lidar com esse trajeto original, com poeira e atoleiro. Hoje em dia tem um pouco de asfalto, mas eu lembro quando não tinha nada, era terrível. Ficava preso na estrada mesmo, esperando as condições melhorarem”, completa. “É uma estrada que pouca gente tinha a expectativa de melhora definitiva”.

Os dois cultivam sonho similar: a instalação palpável do progresso. As melhorias, rezam os empresários, envolvem barateamento do frete para os produtos que comercializam, a possibilidade de diversificar fornecedores e atrair novos investimentos privados para rivalizar com a produção do campo e, de uma vez por todas, a conquista de uma torre com sinal de celular. A comunidade ainda se conecta ao mundo, às vésperas de 2021, apenas com wi-fi e telefone fixo.

“É uma obra que vai surtir muito efeito na região porque liga o Mato Grosso do Sul a Umuarama e outras regiões do Paraná. Ela vai melhorar o fluxo de escoamento e a economia. Antes era uma rodovia de terra, de difícil acesso, com muito barro, muita lama, e provocava desvios por Ivaté, o que dá 25 ou 30 quilômetros a mais”, argumenta Lucas Franco, 32, dono de um posto de combustível em Icaraíma. “Agora já tem bastante gente transitando nesse trecho e o pessoal fala muito bem das obras que já aconteceram. Chegou a nossa vez”.

ESTRADA

A intervenção do Lote 1 da Estrada Boiadeira começou a sair do papel no começo do ano passado e atingiu 33% em novembro, segundo o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), gestor e executor do contrato original. Essa licitação envolve revitalizações entre Porto Camargo e Icaraíma, um contorno em Icaraíma e a pavimentação do traçado original da Boiadeira entre Icaraíma e Serra dos Dourados, já em Umuarama, com outro contorno de 4,5 quilômetros em Santa Eliza. O empreendimento envolve, ao todo, 46 quilômetros de obras.

“A rodovia faz parte da bacia do Rio Ivaí, que desemboca no Rio Paraná, e é importante pela sua contribuição ao reservatório da hidrelétrica de Itaipu Binacional. Ela é parte de investimentos estratégicos em parceria com o Governo do Estado porque temos o compromisso de ser propulsores do desenvolvimento”, afirma o diretor-geral brasileiro de Itaipu Binacional, Joaquim Silva e Luna.

O Lote 1 é dividido em três trechos. Os dois primeiros ainda não tiveram as obras iniciadas, enquanto o terceiro, que era aquele mais crítico de estrada de chão, já vê máquinas a pleno vapor.

O trecho 1, perto do Mato Grosso do Sul, tem cerca de 10 quilômetros e está localizado entre Porto Camargo e Icararíma. Ele já é asfaltado. A intervenção nesse tomo envolve implementação de acostamento, ajuste de curvas (reequilíbrio), alargamento da pista e novo pavimento sobre o existente. Esse circuito começa pouco após a divisa (região de Naviraí e Itaquiraí), onde a BR-487 e PR-082 são uma coisa só.

Logo em seguida será construído um contorno em Icaraíma, tirando do Centro o fluxo de caminhões. Esse trecho 2 terá cinco viadutos, cortando a PR-485 e reconectando o município ao novo traçado. A implementação ainda está na fase de desapropriação, mas os processos já estão bem adiantados.

O traçado original da Boiadeira, que até há pouco tempo era inteiramente de terra, começa logo após Icaraíma, onde a BR-487 e PR-082 finalmente se dividem – a segunda se prolonga com destino a Ivaté. Esse trecho 3 é a pavimentação sobre o traçado original da Boiadeira até o distrito de Serra dos Dourados.

Em quase dois anos as obras se concentraram entre Icaraíma e Umuarama, onde já foi realizada terraplanagem, drenagem, base e sub-base, e os meios-fios na chamada área de miolo, restando apenas o começo, o final e o contorno em Santa Eliza. Entre o distrito de Amarildo Mamprim e Carlos Francisco de Oliveira e o de Serra dos Dourados ainda está o traçado original, com subidas e descidas mais acentuadas e o areião característico do solo, mas já há frentes de drenagem com tubulações em concreto e terraplanagem.

Também estão em execução três viadutos próximos a Icaraíma: um para dividir o acesso entre a Boiadeira e Ivaté e outros dois no sentido a Umuarama, para retorno e tráfego interno dos canaviais e das fazendas de pecuária que margeiam a rodovia. Ainda haverá outro viaduto em Santa Eliza, próximo ao contorno que vai desviar a localidade, formando, ao todo, os nove viadutos ou obras de arte do contrato original.

O investimento total alcançará quase R$ 260 milhões, sendo R$ 223,8 milhões bancados pela Itaipu Binacional, num convênio de sub-rogação do contrato para o Departamento de Estradas de Rodagem do Paraná (DER-PR). Ainda neste mês todas as partes envolvidas assinam todas as vias dos dois convênios: o primeiro entre o Dnit e o DER-PR, de gestão, e o segundo entre o DER-PR e a Itaipu para o repasse do dinheiro.

Com esses novos recursos a empreiteira contratada promete alcançar 250 funcionários operando em ritmo acelerado na obra, com expectativa de entrega definitiva em janeiro de 2022.

Enquanto isso, o Dnit fará o chamamento da empresa que venceu a licitação do Lote 2 entre a Serra dos Dourados e Cruzeiro do Oeste (serão 37 quilômetros de obras, passando pela localidade de Lovat e coexistindo com a PR-323). O contrato é do modelo de RDCI, ou seja, a mesma empresa faz o projeto e executa a obra. Essa conexão alcança no Lote 3, o primeiro a sair do papel (2013), entre Cruzeiro do Oeste e Campo Mourão. Há expectativa de encerrar a revitalização da Boiadeira nos próximos cinco anos, perfazendo mais de 150 quilômetros no Paraná.

REPERCUSSÃO

A obra tem repercussão macro e micro, imediata e de longo prazo. Do lado estratégico, ela contribui com a criação de uma rota bioceânica conectando o Porto de Paranaguá e outros terminais brasileiros a Antofagasta, no Chile. No futuro, a ligação prevê uma rodovia de mais de 2,4 mil quilômetros entre Campo Grande (MS) e o porto chileno, que poderá reduzir em até duas semanas o tempo de viagem das exportações do Brasil para os países orientais, principalmente China, Japão e Coreia do Sul.

O asfalto completamente novo também evita desvios de até 100 quilômetros que caminhoneiros com cargas oriundas do Mato Grosso do Sul precisam fazer para fugir da temida estrada de chão. A rodovia propõe uma nova era de desenvolvimento para o Noroeste, favorecendo o desenvolvimento de pequenos municípios no entorno de Umuarama.

Na outra ponta está a felicidade de Genivaldo Gonçalves Cruz, 62, que espera aumentar as vendas de sua banca de frutas em Santa Eliza. O ex-motorista de ônibus perdeu o emprego durante a pandemia e teve que se reinventar com maçãs, melancias, laranjas e morangos, faturando, em dias excepcionais, R$ 200 de ingresso bruto. A expectativa é de ver o movimento aumentar e, consequentemente, poder alcançar mais vendas.

“É como se estivéssemos a vida inteira esperando essa estrada. Ela vai ser boa para a gente, do comércio informal, do comércio de rua, de quem precisa se virar, e muito boa para o comércio formal, para as possibilidades que vai gerar com o acesso rápido. Com mais movimento a tendência é melhorar e a comunidade voltar a ser o que era no passado”, comemora.

A expectativa de Pedro Carmona Navarro, 61, também é alta. Ele labuta há 30 anos na boleia de caminhões que carregam bois de pecuária para o abate – 18 cabeças a cada viagem, em média. Ele conhece a rodovia como poucos porque tem que usá-la com frequência. Ela tem o nome que espelha a sua profissão.

“Sempre convivemos com esse trecho de areia, essa rodovia ruim. Tem algumas subidas que, mesmo nos dias de hoje, só dá para subir com tempo bom, sem tanto sol e sem o lamaçal das chuvas. O asfalto diminuirá o tempo que fico na estrada e trará mais segurança”, arremata. “Parece irreal. Mas como já está em andamento dá para finalmente acreditar”.