Guarapuava, 22 de agosto de 2019
#curta!

O volume da editora Record tem capa dura e ilustrações de Renan Araujo. O livro toma como base a versão do texto da 2ª edição da obra, publicada pela J. Olympio, com as últimas correções feitas pelo autor

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Tudo começou com Baleia. Antes mesmo de Fabiano, sinhá Vitória e seus filhos aparecerem no horizonte do semiárido nordestino, a famosa cachorrinha já existia no universo ficcional do escritor alagoano Graciliano Ramos (1892-1953).

É que o velho Graça, como também era conhecido, escreveu primeiro o conto sobre a “morte duma cachorra” e só depois começou a dar forma ao restante do romance “Vidas Secas”, cujo lançamento ocorreu em 1938. Aliás, na última hora Ramos mudou o título da obra, trocando “O mundo coberto de pennas” por “Vidas Seccas” (conforme a grafia da época), na edição publicada pela lendária editora José Olympio.

Recém-lançada pela Record, a edição comemorativa de 80 anos do romance reproduz o rosto original de “Vidas Secas”, a partir do acervo da Universidade de São Paulo (USP).

No entanto, o detalhe mais fascinante ao aficionado pela literatura de Graciliano Ramos é a inserção nessa edição comemorativa de trecho de uma carta de 7 de maio de 1937. Do Rio de Janeiro, o autor se correspondeu com sua esposa Heloísa Ramos (em Alagoas) para falar sobre um conto cujo tema era a “morte duma cachorra”. Ele se questiona se o animal tem alma. “O meu bicho morre desejando acordar num mundo cheio de preás. Exatamente o que todos nós desejamos”.

Graça ainda informa que é a quarta história feita na pensão onde ele está instalado. “Nenhuma delas tem movimento, há indivíduos parados. Tento saber o que eles têm por dentro”.

Nesse relato íntimo, o alagoano conta brevemente a gênese de seu mais famoso livro. O pontapé de “Vidas Secas” inicia com a feitura de um conto sobre a morte de uma cachorra. Inclusive, a nova edição da Record reproduz no capítulo “Baleia” o manuscrito original com as emendas feitas de próprio punho do escritor.

Graciliano Ramos é um dos principais nomes da literatura brasileira produzida no século 20

ROMANCE

De um conto, o livro se transformou num romance. Ou melhor, num “romance-desmontável”, pois parte da crítica literária já apontou que os capítulos do livro são na verdade contos, cuja independência permite sua leitura fora de ordem.

Mais do que isso, é importante notar que o conto estrelado pela cachorra Baleia serviu de base para a estrutura narrativa de “Vidas Secas”. No trecho da carta a sua esposa, Graciliano Ramos afirma que ele quer saber o que se passa no interior das personagens.

Em 1938, depois de pronto e lançado o livro, é com isso que o leitor se depara: um mergulho na subjetividade de cinco personagens confrontados com a secura do sertão nordestino: o vaqueiro Fabiano, sua esposa sinhá Vitória, os filhos do casal (chamados apenas de menino mais velho e menino mais novo) e a cachorrinha Baleia.

Acossada pelas condições socioeconômicas daquela região, a família de Fabiano entra em parafuso, mas sem perder seu mundo interior. Todos os cinco (incluindo a cachorrinha, claro) têm sonhos e necessidades que vão além do simples desejo material ou dos limites geográficos. A literatura do velho Graça é universal, introspectiva e lapidada.

Detalhe da ilustração que abre o capítulo 'Baleia' na nova edição da Record

 

CAPÍTULO

Nesse sentido, é importante destacar o capítulo intitulado “Baleia”, que é um dos mais belos da literatura brasileira.

Descendo ao mesmo nível de interioridade da personagem Baleia, o narrador em 3ª pessoa (ou seja, não é diretamente um dos personagens da história) desvela um mundo de sonhos e desejos.

Sem pieguice ou cafonice, o narrador captura novamente o ponto de vista da personagem, agora nos seus últimos momentos de vida. É impossível não se emocionar.

EDIÇÃO

Na carona dos 80 anos de lançamento de “Vidas Secas”, a Record está nas livrarias com um volume caprichado, em capa dura, ilustrado por Renan Araujo, tendo como base a versão do texto da 2ª edição da obra, publicada pela J. Olympio, com as últimas correções feitas por Graciliano Ramos.

Além de informações importantes, a nova edição tem prefácio e posfácio escritos por dois especialistas em literatura brasileira: Benjamin Abdala Junior e Hermenegildo Bastos, respectivamente. Em tempo, Bastos tem um excelente livro sobre o universo de Graciliano Ramos: “Memórias do Cárcere, literatura e testemunho” (ed. UnB, 1998).

Para mais informações, acesse o site da Record (CLIQUE AQUI).

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