Guarapuava, 19 de março de 2019
#curta!

Nesta quinta-feira (14 março), se o baiano ainda fosse vivo completaria 80 anos. Nascido em 14 de março de 1939 em Vitória da Conquista (BA), ele morreu precocemente aos 42 anos de idade em 22 de agosto de 1981 no Rio de Janeiro

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Em 1999, personagens do filme “Quero ser John Malkovich” (dir. de Spike Jonze) podiam acessar a mente do ator John Malkovich em uma experiência, no mínimo, surreal. Até mesmo o próprio Malkovich tinha essa possibilidade. Um filme “mucho loco”, com John Cusack, Cameron Diaz e, claro, John Malkovich no elenco.

Décadas antes, um cineasta baiano já fazia algo parecido com seus filmes. Só que ele propunha ao espectador adentrar a um universo fragmentado e complexo, baseado em narrativas revolucionárias. Por meio de metáforas e linguagem barroca, Glauber Rocha abria a mente do público para um mundo de invenções na telona do cinema.

Provavelmente, todo cineasta brasileiro ou amante da Sétima Arte já quis algum dia ser Glauber Rocha.

Entre 1962 e 1980, o diretor baiano produziu filmes que entraram para a história, como é caso de “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964) e “A Idade da Terra” (1980). Nem sempre compreendido, mas amado e odiado de alguma maneira. Enfim, Glauber incomodava. E isso é suficiente para comprovar a sua relevância artística.

Nesta quinta-feira (14 março), se o baiano ainda fosse vivo completaria 80 anos. Nascido em 14 de março de 1939 em Vitória da Conquista (BA), ele morreu precocemente aos 42 anos de idade em 22 de agosto de 1981 no Rio de Janeiro. Foram apenas quatro décadas de vida, mas com intensidade e polêmicas.

De principal mente criativa do movimento conhecido como Cinema Novo, Glauber passou a exilado ao final de sua vida.

Entre 1962 e 1980, o diretor baiano produziu filmes que entraram para a história, como é caso de “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964) e “A Idade da Terra” (1980) (Foto: Divulgação)

REVOLUÇÃO

Nos anos de 1960, Glauber Rocha liderou na cultura brasileira um movimento cinematográfico que tinha como objetivo revolucionar o modo de produzir filmes no país. Tratava-se do Cinema Novo, cujo lema era “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”.

Dito de outro modo, era uma proposta que valorizava um tipo de cinema mais conceitual, em que as ideias do cineasta estavam acima da feitura industrial do cinema. Literalmente falando, bastava uma câmera na mão para realizar um longa-metragem. Imagine esse tipo de projeto hoje, com as facilidades das câmeras de celular...

Mas, na década sessentista, tudo era muito caro em um set de filmagem. Glauber quis mudar isso, preferindo locações externas, atores não-profissionais (gente comum) e soluções técnicas baratas.

Ele também cunhou o conceito de “estética da fome”, ou seja, utilizar as mazelas brasileiras (caso da miséria) como o cerne do cinema feito aqui. Para o diretor baiano, o Brasil precisava naquele momento romper com as “exigências materiais e as convenções de linguagem próprias ao modelo industrial dominante”. E só a fome unia a todos: “socialmente, economicamente e filosoficamente”.

Cena de 'Deus e o Diabo na terra do sol', principal filme de Glauber Rocha (Foto: Divulgação)

FAROESTE

Sem dúvida, “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964) é o grande legado de Glauber Rocha para a cinematografia nacional. Em muitas listas de “melhores filmes”, essa produção está quase sempre em primeiro lugar, seguida de perto por “Vidas Secas” (1963), clássico dirigido por Nelson Pereira dos Santos, o “pai do Cinema Novo”.

No fundo, Glauber fez um “faroeste do terceiro mundo” ao abordar uma história de misticismo e exploração no sertão brasileiro. No enredo, Manuel (Geraldo Del Rey) é um vaqueiro que se revolta contra a exploração imposta pelo coronel Moraes (Mílton Roda) e acaba matando-o numa briga. Ele passa a ser perseguido por jagunços, o que faz com que fuja com sua esposa Rosa (Yoná Magalhães).

O casal se junta aos seguidores do beato Sebastião (Lídio Silva), que promete o fim do sofrimento através do retorno a um catolicismo místico e ritual. Porém, ao presenciar a morte de uma criança Rosa mata o beato. Simultaneamente Antônio das Mortes (Maurício do Valle), um matador de aluguel a serviço da Igreja Católica e dos latifundiários da região, extermina os seguidores do beato.

FILMES

Até os anos de 1980, Glauber produziu obras como “Barravento” (1962), “Terra em Transe” (1967), “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro” (1968), “O Leão de Sete Cabeças” (1971) e “A Idade da Terra” (1980), entre documentários e curtas-metragens.

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