Guarapuava, 22 de novembro de 2019
Agricultura

Durante o evento, que foi realizado entre 15 e 17 de outubro, o lançamento da cultivar Imperatriz, desenvolvida ao longo de 10 anos na Fundação Agrária de Pesquisa Agropecuária, coroou uma das variedades da região; já em relação ao trigo, a tônica foi sua importância na rotação do plantio

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A 16ª edição do WinterShow, que dedica uma extensa programação aos cereais de inverno, movimentou o setor produtivo da região de Guarapuava - especialmente no distrito de Entre Rios - entre os dias 15 e 17 de outubro, na sede da Fundação Agrária de Pesquisa Agropecuária (Fapa).

Acompanhando o desenvolvimento da própria entidade, uma das metas foi apresentar aos cooperados da Agrária e aos demais produtores o que há de mais recente em termos de inovação e tecnologia com as culturas de inverno.

Esse aspecto é ressaltado pelo presidente da cooperativa, Jorge Karl, que explica que a participação no evento vem crescendo ao longo dos anos, com um público composto por produtores, técnicos da área rural e empresas do ramo.

“Nós queremos justamente mostrar melhor o que vem sendo gerado na nossa fundação de pesquisa”, diz o presidente, pontuando que esses conhecimentos são repassados aos agricultores da região, através de uma assessoria técnica, e posteriormente difundidos em toda a região Sul do Brasil.

“Nós temos um interesse grande, uma vez que nossas indústrias são baseadas em matéria-prima que vem das culturas de inverno”, completa Karl.

E, durante a edição do WinterShow, um dos destaques em termos de inovação foi a cultivar Imperatriz, lançada após um estudo realizado pela Fapa. De acordo com o pesquisador Noemir Antoniazzi, essa foi a primeira variedade de cevada desenvolvida pela instituição através de um programa de melhoramento iniciado em 2009.

Registro em detalhe da cultivar Imperatriz (Douglas Kuspiosz/Correio)

“Ela vem com um apelo especial melhorando a sanidade da cevada. É mais tolerante às doenças, com produtividade igual ou superior às que já estamos cultivando. Mas, seu diferencial é justamente a resistência, o que implica em um menor uso de fungicidas e, consequentemente, uma produção mais sustentável”, explica o profissional.

Para o presidente da Agrária, a importância da inovação no campo evidenciada pelo evento vai além, já que envolve toda a tecnologia gerada pelo setor. “A agricultura digital é uma grande novidade que tem aparecido, e isso anualmente está sendo aprimorado, com o produtor assimilando esse conhecimento”, completa.

ROTAÇÃO

Se por um lado a cevada é importante para a economia através de sua produtividade na região de Guarapuava, que é uma referência nacional, o trigo vem sendo fundamental durante as rotações de culturas, favorecendo outros tipos de cultivo.

Em entrevista ao CORREIO, o pesquisador da Fapa, Juliano Luiz Almeida, explicou que produtores que optam por não plantar os cereais de inverno acabam, a longo prazo, tendo problemas em suas propriedades.

Segundo Almeida, o trigo desempenha um importante papel na rotação de culturas (Douglas Kuspiosz/Correio)

“Nos primeiros anos eles têm uma produtividade razoável de soja, mas com os passar dos anos, por conta de problemas nas raízes e doenças, vai caindo, junto com a margem bruta e a rentabilidade”, explica Almeida, que ministrou uma palestra sobre o assunto no primeiro dia do WinterShow.

 

Segundo o pesquisador, é inevitável tratar do aumento da produção quando se fala em inovação com o trigo, já que as novas cultivares vêm produzindo cada vez mais. “Nosso objetivo é deixá-lo tão produtivo quanto a cevada”, diz Juliano, acrescentando que a fundação também possui uma linha de pesquisa focada na residência das plantações.

PRODUÇÃO

Indo de vento em popa, as plantações de cevada devem ter resultado positivo nesta safra, uma vez que houve aumento na área de plantio a partir do desempenho da espécie na região e dos incentivos da cooperativa, explica Noemir.

Isso ocorre, de acordo com o pesquisador, devido à grande demanda para atender a maltaria, que necessita de cerca de 500 mil toneladas.

“É saudável e necessário que se faça um incentivo para o produtor, para ele ter um melhor interesse e desempenho da cevada”, ressaltando que a área total deve variar de 60 a 70 mil hectares neste ano.

A agricultora Claudete Buhali (50 anos), que foi uma das participantes do WinterShow, está retomando aos poucos a sua produção de cevada após um hiato de quatro anos. Para esta safra, sua propriedade conta com aproximadamente 22 hectares do cereal. “A expectativa é boa”, contando que a falta de chuvas acabou afetando sua plantação em um primeiro momento. “Mas depois melhorou e eu acho que vai ter uma boa qualidade”, acredita.

Enquanto isso, as condições climáticas vêm sendo propícias para o cultivo de trigo, segundo o pesquisador da Fapa, já que a espécie é “acostumada” com o tempo mais seco. “Tanto nas parcelas da Fapa quanto nas lavouras, o visual de modo geral está muito bom”, garante Almeida, que projeta uma boa colheita.

(Foto: Douglas Kuspiosz/Correio)

PALESTRA

Durante o segundo dia do WinterShow, o empresário Arthur Igreja ministrou a palestra “Inovação disruptiva e futuro dos negócios”, dando ênfase à forma como os novos aparatos tecnológicos vêm impactando no comércio e no cotidiano do produtor rural.

A conversa também buscou esclarecer curiosidades sobre essas ferramentas; o termo “disruptivo”, por exemplo, condiz com o fenômeno que atinge as inovações e estimula as transformações no mercado.

Para Igreja, constantemente é evidenciado um debate sobre o uso da tecnologia no campo, e até que ponto é válida a tese sobre a substituição do homem rural pelas máquinas.

“Eu acredito que tudo depende sempre das pessoas. As coisas são feitas com pessoas, por pessoas e para pessoas. A transformação que estamos passando é sim muito tecnológica, mas a principal transformação é no hábito das pessoas”, acredita o empresário, ressaltando que o evento é uma provocação. “A gente tem que fazer algo com esse conhecimento recebido aqui”.

OCIOSAS

A produção das culturas de inverno na região de Guarapuava tem se mantido positiva, e os pesquisadores da Fapa acreditam que há espaço para crescer ainda mais.

Em relação à cevada, Antoniazzi pontua que há possibilidade de um aumento tanto em área quanto em volume de cereais. Porém, isso depende de questões climáticas, tecnológicas e do próprio manejo no campo.

“Existe um espaço para crescer dentro das áreas que estão sendo cultivadas no verão e recebem uma cobertura no interno. Eu sempre digo que a agricultura não se sustenta só com seis meses, é preciso ter um pé no inverno para consolidar todo o processo produtivo da propriedade”, diz o pesquisador.

Produtores, técnicos rurais e estudantes participaram do evento (Douglas Kuspiosz/Correio)

De forma semelhante, Almeida ressalta que as áreas ociosas no Sul do Brasil são maiores que o espaço de cultivo, e que grande parte acaba ficando em pousio, gerando erosão no solo e proliferação de plantas daninhas.

“Enquanto isso, se você trazer o cultivo de inverno, ele vai garantir vários benefícios”, citando a geração de emprego. “O Brasil hoje importa 50% do trigo que precisa, então estamos gerando emprego na Argentina”, diz Juliano.

No aspecto da produção do cereal, o pesquisador afirma que a cooperativa já chegou a cultivar mais de 30 mil hectares, e que hoje esse número está em cerca de 10 mil. “Temos um potencial muito grande para crescer tanto no trigo quanto na cevada, na aveia branca e na canola”, completa o profissional.

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