Guarapuava, 19 de fevereiro de 2020
Cotidiano

Entre idas e vindas de expedições colonizadoras, Guarapuava foi a sétima cidade do Paraná, e completa seus dois séculos de fundação; dentro deles, conflitos, ciclos econômicos e miscigenação deram origem para o atual cenário dinâmico da cidade

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Guarapuava é menina radiante, metáfora reafirmada no hino municipal. Com dois séculos de formação, a cidade ainda tem espírito jovial, e com o passar do tempo, tem acompanhado o ritmo intenso de desenvolvimento.

Entretanto, há 200 anos as mudanças eram significativas: no lugar dos grandes prédios e ruas movimentadas, a “pequena-grande freguesia” era ocupada por largos campos que posteriormente seriam fontes de renda na agricultura, fruticultura, madeira e pecuária.

EXPEDIÇÕES

Antes ainda da fixação dos navegantes portugueses no litoral paulista e nordestino, a região de Guarapuava já recebia o primeiro europeu. Pelo litoral atlântico, as diversas expedições navegantes tornavam-se ainda mais intensas desde o achamento do Brasil, território anteriormente habitado por indígenas. 

Ainda em 1710, com a chegada do desbravador Cândido Xavier e suas tropas, “Pato Branco, Campo Mourão, Prudentópolis, Foz do Iguaçu: tudo era Guarapuava, era um território muito grande. O interesse dos portugueses [proprietários da colônia] era chegar com limite ao Sul no Rio da Prata, porque sempre existia o interesse em encontrar o ouro e pedras preciosas”, ressaltou Zilma Haick Dalla Vecchia (77 anos), historiadora local. Após muita luta, os indígenas conseguiram a posse das terras novamente, sendo um motivo de desistência por parte dos desbravadores pelo território.

ABANDONO

Tal momento é descrito pelo ex-prefeito e estudioso da história local, Nivaldo Krüger (90 anos), como “longo período de abandono”. “As reduções dos padres jesuítas foram destruídas perto de 1640, o que fez com que os espanhóis abandonassem a terra aqui. O local ficou abandonado por muito tempo, já que não interessava nem aos portugueses e nem aos espanhóis, não tinham minérios aqui. A parte de Guarapuava que vai até o Rio Paraná, até o Paranapanema do Iguaçu [região norte-sul] não foi explorada por muito tempo”.

Reprodução/Nivaldo Krüger

Mas os anos passaram-se e, em 1810, uma longa expedição de conquista e povoamento da região era liderada pela figura curitibana de Diogo Pinto de Azevedo Portugal, símbolo representado por meio do atual monumento da cidade conhecido pelos populares como “Rotatória do Cavalo”. Junto dele, veio também outra figura importante: Padre Francisco das Chagas Lima, o padre Chagas. Neste momento, o Fortim Atalaia (atual distrito da Palmeirinha) foi consolidado, local que abrigava tropas, famílias e povoadores. Com pouco mais de 300 pessoas, aproximadamente 200 eram soldados vindos da cidade paulista de Santos, de Curitiba e de outros cantos do Paraná: além dos indígenas, portugueses e espanhóis, o território já ganhava a face da miscigenação.

FUNDAÇÃO

Zilma e Nivaldo afirmam que as discordâncias entre padre Chagas e Azevedo Portugal eram frequentes, e o auto de fundação, dado em 9 de dezembro de 1819, foi fruto de uma das divergências. "Este Auto de Fundação é um documento importante, e o lugar escolhido pelo padre Chagas foi em oposição às ordens do Diogo", ressalta Zilma. Muito do que se tem da atual cidade foi planejado por padre Chagas também, como é o exemplo do Primeiro Plano Diretor de Guarapuava.

A partir da fundação do município como Freguesia de Nossa Senhora de Belém, o planejamento de ruas e construções cívicas eram impostas de quarteirões em quarteirões. As casas deveriam ser distantes umas das outras, já que não havia luz elétrica e o risco de incêndios por velas era iminente.

RESISTÊNCIA

O tempo passou, e alguns dos que fizeram parte da construção da cidade ainda resistem. É o exemplo de Maria Vanda Viana Alves, descendente de africanos trazidos e escravizados na região. Hoje, ela faz parte da comunidade quilombola Paiol de Telha, e descreve parte da história amarga do município. 

“Nós não ‘podia’ se misturar com os brancos, era tudo separado. Se um escravo ‘aprontasse’, era chicoteado e tinha a orelha pregada, cortada”, relembrou. Boa parte do desenvolvimento local deve-se à mão de obra escrava, tanto nas pavimentações e construções quanto na economia.

EVOLUÇÃO

Atualmente, a cidade avança cada vez mais, com desenvolvimento em tecnologia, informação e mercado de trabalho, que dão dinamicidade para a famosa "terra do lobo bravo". Em 200 anos, a história contada de diversas maneiras mostra que a cidade que surgia triunfante, tende a triunfar ainda mais, reafirmando o crescimento da ‘menina Guarapuava’.

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