Rafael Calça e Jefferson Costa sobem o ‘sarrafo’ em ‘Jeremias – Alma’

Após faturarem o Jabuti de melhor HQ com “Jeremias – Pele” (2018), autores exploram nova faceta do protagonista em segundo volume produzido para o selo Graphic MSP

Sabe aquela história do “sarrafo lá em cima”? É uma expressão emprestada do universo do atletismo muito utilizada hoje em dia para se referir a um parâmetro acima da média.

Pois bem, “Jeremias – Alma” (2020), pela ed. Panini Comics, conseguiu elevar o tal sarrafo. Na obra anterior, “Jeremias – Pele”, os autores Rafael Calça (roteiro) e Jefferson Costa (desenho) haviam estabelecido um alto padrão de quadrinhos dentro do selo Graphic MSP. Principalmente pela abordagem sensível do tema do racismo.

Mas, em “Alma”, eles conseguiram se superar. Os quadrinistas foram mais a fundo, em busca de uma narrativa sobre identidade e representatividade. Movido pela inquietação, o personagem Jeremias quer descobrir suas origens. Nessa trajetória, personagens e símbolos da cultura afro-brasileira são desvelados e valorizados.

Antes, é preciso esclarecer alguns detalhes. Para quem não sabe, durante muito tempo o menino Jeremias era relegado ao posto de coadjuvante nas clássicas historinhas da Turma da Mônica. Nunca teve o merecido protagonismo, ou melhor, o devido aprofundamento. Estamos falando daquelas revistinhas de banca de jornal que quase todo brasileiro já leu na sua infância.

Porém, a coleção especial Graphic MSP “corrigiu”, de certa maneira, essa injustiça com Jeremias. Em 2018, o selo lançou “Jeremias – Pele”, uma narrativa em que seu protagonista tem de lidar com o preconceito racial. É uma jornada de descoberta e afirmação da identidade.

A abordagem de Calça e Costa deu tão certo que essa graphic novel venceu o Prêmio Jabuti 2019 na categoria de melhor HQ. O Jabuti é a maior premiação do mercado literário brasileiro.

Dois anos depois de “Pele”, os quadrinistas aparecem com uma nova aventura de Jeremias, “Alma”. Desta vez, o “menino do chapéu” quer saber sobre sua ancestralidade, ou seja, quais são seus antepassados. É ocasião oportuna para que os autores deem destaque à “história não oficial”: a contribuição da cultura negra para o Brasil.

Ao longo das páginas, “Alma” homenageia figuras importantes e referências, caso da escrava Anastácia, que facilitava a fuga de escravos; do jornal Clarim da Alvorada, um importante veículo da imprensa negra, fundado em 1924; de Luiz Gama, patrono da abolição; de Enedina Alves Marques, a primeira mulher negra brasileira a se formar em Engenharia, em 1945.

Capa da edição publicada em 2020 (Foto: Reprodução)

CONTAÇÃO
Um dos aspectos mais fortes de “Alma” é a questão da escrita, da criatividade. Na trama, Jeremias é um menino que gosta de escrever e contar histórias. Inclusive, aprendeu com seu pai sobre o livro “O Conde de Monte Cristo”, de Alexandre Dumas, um autor negro.

Na narrativa de Calça e Costa, contar histórias é uma forma de compreender o mundo. É a “alma” do universo, digamos assim. E Jeremias tenta encontrar a ponta do fio para desenrolar o novelo e, assim, descobrir sobre a trajetória de seus antepassados e de si próprio.

Enfim, “Jeremias – Alma” é uma leitura “obrigatória” para quem quer conhecer mais sobre o assunto. É candidato a mais um Jabuti.

SÉRIE
A série Graphic MSP, que chegou a 30 volumes, propõe desde o ano de 2012 releituras dos personagens criados por Mauricio de Sousa. Geralmente, os autores são convidados para participar do projeto, em edições “fechadas”, com histórias que iniciam e terminam no mesmo livro. À exceção das aventuras do Astronauta, que ganharam continuação nos últimos anos pelas mãos de Danilo Beyruth.

SERVIÇO
A HQ “Jeremias – Alma” está disponível para venda nas principais livrarias e também em bancas de jornal.

*********Texto: Cris Nascimento, especial para CORREIO