Agnaldo Timóteo é um dos personagens de documentário sobre música brega

Lançado há dez anos no circuito de festivais, “Vou rifar meu coração” é um documentário sobre o imaginário romântico a partir da música brega

“Eu li num livro que a paixão é a coisa mais brega do mundo, consome o ser humano”, diz uma entrevistada a certa altura de “Vou rifar meu coração” (2011).

Esse é o ponto em questão do documentário dirigido por Ana Rieper: o que é brega? É amar demais? Ou ser tomado por uma paixão desenfreada? Em outro momento, o cantor/compositor Amado Batista diz que todo mundo tem o seu romantismo. Por sua vez, outro artista muito popular (à sua época), Odair José, diz que a “dor de corno” é a mesma, independentemente da classe social.

Entremeada por histórias de anônimos e depoimentos de artistas da chamada música brega (Nelson Ned, Wando, Amado Batista, Agnaldo Timóteo, Odair José, Lindomar Castilho, Walter de Afogados), o filme investiga as motivações amorosas do ser humano. Ao longo de 78 minutos, desfilam histórias de traição, do homem com duas mulheres, da amante, do amor de cabaré, dos homossexuais etc. É uma verdadeira viagem ao imaginário romântico.

Aliás, o nome do documentário é retirado da canção “Eu Vou Rifar Meu Coração”, sucesso brega imortalizado na voz de Lindomar Castilho. Esta música também embala uma das sequências do filme: “Eu vou rifar meu coração/Vou fazer leilão/Vou vendê-lo a alguém”, dizem os versos iniciais.

E Castilho é um dos personagens da narrativa. Para quem não sabe, além de famoso por hits como “Você é doida demais”, ele também entrou para a crônica policial em 1981, quando, tomado por ciúmes, assassinou a sua segunda esposa de quem estava legalmente separado, Eliane de Grammont. Foi condenado a 12 anos e dois meses de prisão (mas foi solto em 1988).

No filme de Rieper, o caso não é citado nominalmente. Mas, em seu depoimento, Castilho analisa o lado passional do homem.

Outro cantor em destaque no material audiovisual é Agnaldo Timóteo, falecido no último dia 3 de abril aos 84 anos de idade. Inclusive, este episódio da série especial do CORREIO, Arquivos Culturais, é dedicado à memória desse artista.

Reportagem do Estadão de 2012 (Foto: Reprodução)

AUTENTICIDADE
Um dos pontos recorrentes em “Vou rifar meu coração” (o documentário) é a autenticidade das canções românticas, principalmente as exageradamente sentimentais. Enfim, o cancioneiro “brega”, cujo termo é questionado por Timóteo, que vê preconceito nessa definição.

Tanto os personagens anônimos quanto os artistas famosos defendem que é preciso ter vivido certos sentimentos para transformar isso em música. “Todas as músicas que eu gravei até hoje falam um pouco da minha história, da minha vida, da minha cama, dos meus sentimentos, das minhas ilusões, do meu sofrimento”, afirma Agnaldo Timóteo.

RECEPÇÃO
Lançado em 2011 no circuito de festivais, esse filme da cineasta Ana Rieper completa uma década neste ano. Em 2012, quando chegou aos cinemas comerciais, ganhou reportagem de página inteira no jornal O Estado de S.Paulo (de 3 de agosto).

Assinado pelo crítico Luiz Carlos Merten, o material deu uma pincelada geral na estrutura de “Vou rifar meu coração”, com depoimentos da diretora. Uma das questões tocadas foi a polêmica causada pela presença de Lindomar Castilho, que “fala sobre o que o ciúme pode provocar, mas sem se referir ao próprio crime. Havia um acordo para não falar do assunto. Compromete o filme? Cinema não é jornalismo, por mais que muita gente, críticos, inclusive, confundam o documentário com reportagem”, analisa o repórter.

Por sua vez, a Folha de S.Paulo (de 20 de julho de 2012) revelou o processo de produção do documentário, surgido dez anos antes. Mas somente em 2010 começou a pesquisa de personagens. “Foram percorridos mais de 5.000 quilômetros pelo interior de Sergipe e Alagoas, ao longo de cinco meses”, diz a matéria do repórter Matheus Magenta.

************Reportagem: Cris Nascimento, especial para CORREIO