Guarapuava, 24 de abril de 2019
#curta!

Fundação Casa de Rui Barbosa, vinculada ao Ministério da Cidadania, disponibiliza uma das maiores coleções sobre a literatura típica do interior nordestino

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Aqueles pequenos “folhetos” com capas de xilogravura que ficam pendurados em barbantes em feiras no interior do Nordeste estão ganhando o Brasil e o mundo por meio da internet. Os poemas populares da literatura de cordel estão em processo de digitalização pela Fundação Casa de Rui Barbosa, vinculada ao Ministério da Cidadania.

Já foram digitalizados e disponibilizados no portal da Casa de Rui 2.100 títulos e esta semana a entidade começou o processo de digitalização de outros seis mil títulos. Dentro de cerca de dez meses, a depender da liberação de direitos autorais, o mundo inteiro terá acesso a 8.379 títulos da cultural regional brasileira, disponíveis gratuitamente ao público por meio do site da Casa de Rui (CLIQUE AQUI).

Além dos folhetos, no portal da Casa de Rui há uma série de indicações e referências de artigos, livros, teses e dissertações envolvendo o tema do cordel, que constitui uma coleção ímpar em importância e originalidade de produção cultural brasileira.

“Ter a minha obra no site da Casa de Rui Barbosa é levar a minha arte ao mundo. Tem um significado histórico, é uma consagração”, disse o fundador da Academia Brasileira de Literatura de Cordel, o cordelista, poeta, contista e ensaísta Gonçalo Ferreira da Silva (81 anos). O cearense é autor de cerca de 300 títulos e se iniciou no Cordel em 1978. Há um conjunto de 216 folhetos em versão on-line do seu trabalho no Portal da Fundação Casa de Rui Barbosa.

Gonçalo Ferreira da Silva é autor de cerca de 300 títulos de cordel (Foto: TV Brasil)

PATRIMÔNIO

Preocupado com a manutenção e valorização do cordel, Gonçalo atuou junto ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), autarquia também vinculada ao Ministério da Cidadania, para que o cordel fosse reconhecido como patrimônio brasileiro, o que se concretizou em setembro de 2018, quando o estilo literário recebeu o título de Patrimônio Cultural Imaterial brasileiro.

Relatos do cotidiano, mortes de pessoas famosas, lendas e acontecimentos históricos são alguns dos temas desses cordéis. Apesar da liberdade temática, os cordelistas seguem as tradições de métricas em suas criações. Os mais frequentes são a parcela (estrofe de versos de quatro sílabas, mas há ainda uma versão mais recente com cinco sílabas); estrofes de quatro versos de sete sílabas; as sextilhas (constituída de seis linhas ou seis versos de sete sílabas, sendo que as linhas pares rimam entre si); setilhas (estrofes de sete versos de sete sílabas); oitavas (estrofes de oito versos de sete sílabas); décimas (dez versos de sete sílabas), mais usadas por repentistas e martelo agalopado (estrofe dez versos de dez sílabas).

COLEÇÃO

O acervo de cordel da Casa de Rui começou a ser constituído a partir de 1960. Entre as obras, é possível encontrar folhetos raros, incluindo os pioneiros do estilo como Leandro Gomes de Barros e Francisco de Chagas Batista.

“A sistematização desses documentos começou em 1979, quando foram mapeados os folhetos de Cordel da fundação”, conta a bibliotecária da fundação Carolina Sena, cuja dissertação de mestrado foi intitulada “A literatura de cordel na Fundação Casa de Rui Barbosa: organizando uma memória dispersa”. Com a pesquisa, foi possível traçar a trajetória do cordel na instituição.

Entre 2001 e 2004, foi desenvolvido um projeto com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) de pesquisa e digitalização da coleção. O trabalho de digitalização começou com a coleção do pesquisador Sebastião Nunes Batista de folhetos de Leandro Gomes de Barros. O conteúdo depois foi ampliado para outros 20 cordelistas, com o patrocínio da Petrobras.

SERVIÇO

A forma mais fácil de conhecer o conteúdo é clicar na aba “poetas e cantadores”, onde se encontra a lista de 21 poetas divididos em duas gerações. A primeira geração é formada por sete autores que atuaram entre os anos de 1900 a 1930. São eles: Antônio Ferreira da Cruz, Francisco das Chagas Batista, João Melquíades Ferreira da Silva, Severino Milanês da Silva, Silvino Pirauá de Lima, José Camelo de Melo Resende e Leandro Gomes de Barros.

Já a segunda geração é de autores que escrevem a partir de 1930 até os dias atuais, num total de 14, que inclui João Martins de Ataíde, Manuel Camilo dos Santos, José Pacheco, Manuel Pereira Sobrinho, João Ferreira de Lima, Minelvino Francisco Silva, José Soares, José Costa Leite, José João dos Santos (Azulão), Raimundo Santa Helena, Rodolfo Coelho Cavalcanti, Manuel d’Almeida Filho, Francisco Sales Arêda e Gonçalo Ferreira da Silva.

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