Guarapuava, 21 de outubro de 2019
Política

Na avaliação da procuradora-chefe regional do MPT, é necessário informar a população sobre os riscos do uso desses produtos químicos, mantendo uma discussão madura e aprofundada; Deagro publica carta-aberta em repúdio

-

Uma audiência pública realizada nesta sexta-feira (4 outubro) no auditório do campus Cedeteg, na Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro), discutiu o uso de agrotóxicos na região de Guarapuava - que está em níveis preocupantes, segundo a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco).

Em entrevista ao CORREIO, a procuradora-chefe regional do Ministério Público do Trabalho (MPT), Margaret Matos de Carvalho, afirmou que o objetivo da reunião foi levar informações sobre a quantidade consumida desses produtos, que afetam a saúde humana e o meio ambiente.

“É basicamente trazer essas informações e tentar construir junto da sociedade algumas estratégias de enfrentamento”, disse, pontuando que é necessário manter uma discussão madura e aprofundada sobre o assunto.

Presente na audiência, o produtor Antenor Marcos Araújo (79 anos) disse que já utilizou esses produtos em uma oportunidade, mas que não gostou. “Eu sou ‘meio’ contra”, acrescentando que já viu pessoas ficarem doentes devido à exposição aos agrotóxicos.

“Tem peão que passava ‘veneno’ e hoje não pode nem tomar um café que passa mal. Ficou doente”, ressaltando que hoje mantém lavouras de milho e feijão em um assentamento na região de Pinhão. “É bom porque é rápido, mas quem quer ter saúde que não mexa com ‘veneno’”, completou.

Presente na audiência, o produtor Antenor Marcos Araújo (79 anos) disse que já utilizou esses produtos em uma oportunidade, mas que não gostou (Foto: Douglas Kuspiosz/Correio)

IMPACTOS

A procuradora-chefe rechaçou a argumentação de que os dados apresentados são falsos, explicando que são utilizados números oficiais do governo do Paraná e de entidades internacionais para debater o assunto, e que defender a saúde não é uma posição ideológica.

“Quando falamos da exposição, que é acima da média do Brasil e do estado, é bastante grave a quantidade de agrotóxicos consumidos”, diz, pontuando que o cálculo é feito com base no volume de produtos comercializados e no número de habitantes de cada município.

“Não estamos dizendo que cada pessoa pega aquela quantidade e ingere diretamente, mas está exposta através das pulverizações aéreas e terrestres, pela água e alimentos”, ressaltando que atualmente ocorre uma “omissão dolosa” de informações para a população.

Margaret explica que o MPT atua nos casos de adoecimentos de trabalhadores que estão expostos a esses produtos, desde a aplicação ou à deriva - resultado das pulverizações aéreas.

A procuradora-chefe rechaçou a argumentação de que os dados apresentados são falsos, explicando que são utilizados números oficiais (Foto: Douglas Kuspiosz/Correio)

RESPOSTA

Em uma carta aberta à população de Guarapuava e região, o Departamento de Agronomia (Deagro) da Unicentro afirmou que “em virtude da ocorrência de comentários e desencontro de informações acerca da audiência pública”, esclarece que “sempre assumiu o compromisso de formar agrônomos capacitados técnica e cientificamente para atuar dentro dos princípios éticos, legais e sem viés ideológico”.

Ainda, o texto aponta que o departamento “não compactua com discussões sem embasamento científico sólido ou permeado por ideologias de grupos específicos, inclusive sobre o uso de agrotóxicos”, pontuando que o Deagro é “a favor do uso correto, responsável e legal” dos produtos, e que repudia a divulgação “superficial, sensacionalista de informações a respeito deste ou de outros assuntos afetos às nossas atribuições profissionais”.

Veja Também