Voz + letra + interpretação: 30 anos de ‘Mais’, de Marisa Monte

Em mais um recuo ao passado, a série especial do CORREIO, Arquivos Culturais, traz à tona os 30 anos de lançamento de “Mais”, segundo registro na carreira de Marisa Monte. Esse disco representa um ponto de virada, pois ela deixou de ser vista apenas pelas qualidades vocais e passou a ser compositora

Em 1989, o mundo musical foi tomado de assalto por “MM”, disco ao vivo de uma jovem cantora que despontava na virada dos anos 80 para os 90. Marisa Monte chamava atenção pelo seu vocal afinado e visceral, em interpretações únicas, por vezes “dramáticas”, sob a chancela do compositor e produtor Nelson Motta.

Mas sua estreia se deu a partir de releituras de canções conhecidas, como “Chocolate”, “Comida” e, principalmente, “Bem que se quis”, versão em português para a italiana “E Po’ Che Fa”; o clipe com MM rodou até mesmo no programa “Fantástico” da TV Globo. Mesmo com todo esse auê, a cantora precisava achar seu caminho autoral na cena brasileira.

E o LP seguinte, “Mais”, marcou a virada na carreira de Marisa, então com apenas 23 anos de idade. Gravado em 1990, esse álbum foi lançado em 18 de março de 1991, ou seja, em 2021 ele completou 30 anos de história. Por isso, a série especial Arquivos Culturais viaja até a década noventista para saber a recepção ao segundo disco de MM.

Antes, é preciso situar o leitor. Com produção do norte-americano Arto Lindsay, “Mais” saiu em versões físicas de CD, fita K7 e LP, pela então gravadora EMI-Odeon. São 12 faixas, com especial atenção para as composições originais: “Beija Eu” (de Marisa Monte, Arnaldo Antunes, Arto Lindsay), “Ainda Lembro” (Monte, Nando Reis), “Diariamente” (Reis), “Eu Sei (Na Mira)” (Monte), “Eu Não Sou da Sua Rua” (Branco Mello, Antunes), entre outras.

Como se vê, o trabalho de 1991 abriu caminho para as parcerias que se tornariam constantes na carreira de Marisa: os titãs Arnaldo Antunes, Branco Mello e Nando Reis. Além das presenças do percussionista Naná Vasconcellos, do saxofonista John Zorne e do cantor Ed Motta, com gravações no Brasil e em Nova York (EUA).

Destaque mesmo para a veia criativa da cantora aparecendo pela primeira vez em registro fonográfico.

Inclusive, isso ficou explícito numa entrevista de MM ao jornal O Globo, em 18 de março de 1991. Ela explicou que o primeiro disco apresentava a cantora; já o segundo estava mais preparado, gravado em estúdio com composições feitas especialmente para o projeto. “É um trabalho muito autoral. Minha interpretação está mais suave, menos dramática que antes”, diz o texto consultado pelo CORREIO.

Ao jornal carioca, a artista destacou que ela passaria a agir mais como compositora e intérprete, não sendo apenas uma voz. “Estou botando para fora algumas composições de muitas que tenho feito”.

Em termos de estilo, Marisa apontava que “Mais” era um produto “mais brasileiro que o anterior, sem aquele clima jazz-blues do primeiro”.

Detalhe da página do Globo, publicada em 1991. Má vontade da imprensa carioca com MM? (Foto: Reprodução)

CRÍTICAS
Apesar da guinada criativa, a imprensa carioca da época torceu o nariz para MM. Certamente, um erro histórico.

Na mesma entrevista publicada no Segundo Caderno, O Globo dedicou também espaço para dois textos de avaliação do disco. A bronca já começa pelo título geral: “Cantora sim, compositora não”.

Em sua crítica, Luciano Trigo não gostou da timidez da cantora, que preferiu limar seu conhecido alcance vocal em interpretações introspectivas e mais contidas. Porém, o autor implicou mesmo com a letras das composições, principalmente da safra titânica (Arnaldo Antunes, Branco Mello e Nando Reis). Ele chama de “estilo telegráfico-tatibitati”: “Mais parecem devaneios de uma criança em idade pré-escolar”.

Trigo também desce a lenha no lado compositor de MM, visto com “resultados constrangedores”.

Por sua vez, Mauro Ferreira aponta que “Mais” acerta ao dar unidade ao ecletismo de Marisa. No entanto, erra ao apresentar o lado compositor da artista, presente em cinco das 12 faixas.

Em resumo, Ferreira detalha sua análise ao longo da resenha, porém vê mais qualidades no todo. “Apesar dos erros, ‘Mais’ assinala uma evolução na obra de Marisa e deverá somar muito na sua carreira”.

Crítica publicada no Estadão. Imprensa de SP tinha outra visão do disco (Foto: Reprodução)

POSIÇÃO
No geral, a crítica especializada de 1991 reagiu com má vontade ao projeto de MM, que em seu primeiro disco de estúdio indicava caminhos que mudariam a música pop.

A ressalva é para a imprensa de São Paulo, que foi mais justa. No jornal O Estado de S.Paulo, de 15 de março de 1991, Lauro Lisboa Garcia avaliou que Marisa superou a estreia como compositora. “Entre suas três parcerias com Nando Reis (…) ‘Diariamente’ se revela o melhor momento do disco e remete a Gal Costa do final dos anos 60”.

Lisboa termina dizendo que “Mais” é um trabalho com frescor de estreia, em que MM está mais afinada e com voz cristalina.

Já a turma de RJ precisou de alguns anos para se render ao LP. Mauro Ferreira, décadas depois, incluiu “Mais” em uma série de seu blog chamada “Discos para descobrir em casa”. “Álbum moderno, ‘Mais’ resistiu bem ao tempo sem envelhecer. Gravado de setembro a novembro de 1990, o disco ganhou mais relevância ao longo desses 30 anos”, escreveu o jornalista.

Um dos grandes hits do disco é ‘Beija eu’, parceria com Arnaldo Antunes (Foto: Cristiano Martinez/Correio)

************Texto/pesquisa: Cris Nascimento, especial para CORREIO

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