Feios, sujos e malvados: 30 anos do disco ‘Tudo ao mesmo tempo agora’, dos Titãs

Em 1991, os Titãs lançavam “Tudo ao mesmo tempo agora”, um disco de ruptura com a então imagem pop e asséptica de sua sonoridade. Ao invés de hits e baladas, o octeto paulistano apresentava rock sujo, guitarras saturadas e letras escatológicas. A série especial “Arquivos Culturais” viaja três décadas para entender tudo isso

Há 30 anos, a banda de rock Titãs antecipou o momento escatológico vivido hoje no Brasil.

O “sangue, lágrima, catarro, peido” de canções como “Saia de mim” já dava exata noção do que viria nesses atuais tempos extremos, repletos de declarações de baixo calão vindas de pessoas metidas a filósofos e políticos.

Mas o octeto titânico utilizava o palavrão, a letra pesada e o rock sujo para promover uma ruptura com seu passado pop/rock e sacudir o país dos anos de 1990. Este é um resumo de “Tudo ao mesmo tempo agora” (Warner Music), disco gestado e lançado em 1991, numa época em que os Titãs eram Arnaldo Antunes (em sua despedida), Branco Mello, Sérgio Britto, Nando Reis, Paulo Miklos, Charles Gavin, Marcelo Fromer e Tony Belloto.

Esse sétimo álbum na discografia do grupo (entre estúdio e ao vivo) apareceu sem funk, reggae, rap ou bateria eletrônica. Mas com um rock saturado de guitarras, sujo e escatológico. Sem Liminha, o cara que forjou a sonoridade pop e “perfeitinha” dos discos titânicos dos anos de 1980, a banda ficou responsável pela produção e assinatura coletiva das faixas de “Tudo ao mesmo tempo agora”.

Aliás, os Titãs soltaram sua fúria com esse manifesto escatológico, rompendo a imagem “bonitinha demais” de antes. Para isso, os integrantes se reuniram em junho/julho numa casa alugada na rua da Invernada, número 8, Granja Viana, Zona Oeste de São Paulo, para gravar o material. Em seguida, fizeram a mixagem no estúdio Nas Nuvens (RJ) durante um mês.

Sucessor do clássico “Õ Blesq Blom” (1989), o álbum “Tudo ao mesmo tempo agora” chegou às lojas em 23 de setembro de 1991. A capa do disco é de Fernando Zarif.

Sem hits radiofônicos, o LP noventista tem como destaque canções do porte de “Clitóris”, “Saia de mim”, “Isso pra mim é perfume”, “Eu não sei fazer música”… só pra ficar nas mais “comportadas”.

Capa do disco é de Fernando Zarif (Foto: Reprodução)

IMPRENSA
A recepção a “Tudo ao mesmo tempo agora” ficou dividida na imprensa em 1991. No jornal O Estado de S.Paulo, o texto “Titãs no rumo do anti-sucesso”, publicado em 24 de setembro de 1991, não aliviou para os lados da banda paulistana.

Marcel Plasse ironiza o lado conceitual do disco: “Da capa ao suor, sangue, gases, vômito, catarro, sêmen, menstruação, excremento que escorre dos sulcos, é um disco obcecado com o corpo”.

Em seguida, ele diz que é o pior disco do grupo pós-“Cabeça Dinossauro”, referindo-se à “fase rebelde, inaugurada em 1986, entre controvérsias policiais e a produção e Liminha”.

Sem o antigo produtor, segundo Plasse, os Titãs puderam fazer um tipo de rock menos pop e suave, investindo na gravação das guitarras mais distorcidas de seus dez anos de carreira àquela altura.

Já O Globo foi mais gentil na avaliação do disco, que ganhou a capa do Segundo Caderno em 22 de setembro de 1991.

Sem assinatura, o texto “A nova ‘pancada’ dos Titãs” se preocupa mais em informar sobre a trajetória da banda paulistana (desde o tempo em que eram os Titãs de Iê-Iê-Iê com seu som new wave). “A virada decisiva da banda veio com a entrada em cena do produtor Liminha e o desvario poético de Arnaldo Antunes em ‘Cabeça Dinossauro’. A ideia parecia ser levar o hardcore para as massas, com letras que misturavam alguns momentos do mais puro punk com inusitados toques eruditos”, diz um trecho.

O grito de independência veio, em 1991, com o impedimento de Liminha (falta de agenda) em participar de “Tudo ao mesmo tempo agora” que, pela primeira vez, contou com os Titãs na produção e na assinatura coletiva das composições. Ou seja, sem especificar qual integrante fez letra e música nas canções.

“O que vai encontrar agora nas lojas de discos pode ser o começo de uma nova fase para a banda, marcada por maturidade e solidez”, diz a matéria, que cita elogios de Caetano Veloso para aquele novo trabalho da banda.

Crítica no Estadão dizia que era o pior disco do grupo pós-“Cabeça Dinossauro” (Foto: Reprodução)

SUCESSOR
Parece que os Titãs gostaram tanto do rock pesado que repetiram a experiência no disco seguinte. Em 1993, já sem Arnaldo Antunes, o hepteto gravou e lançou “Titanomaquia” (produção de Jack Endino), que tem faixas como “A verdadeira Mary Poppins”, “Dissertação do Papa sobre o crime seguida de orgia” e “Será que é isso que eu necessito?”. Curiosamente, “Hereditário” ganharia uma versão desplugada no “Acústico MTV” (1997), sucesso de vendas.

*************Texto/pesquisa: Cris Nascimento, especial para CORREIO

Em caso de coragem, ouça o disco de 1991: