Clássico de Alan Parker, ‘The Commitments’, está disponível no streaming

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Raridade no mercado legal de filmes, “The Commitments – Loucos pela fama” (1991) finalmente voltou ao streaming – antes, disponível apenas na mídia física do DVD, entre colecionadores.

Assim, quem quiser assistir a esse clássico noventista do diretor inglês Alan Parker (famoso por “Mississipi em Chamas” e “Expresso da Meia-Noite”, entre outros), pode acessar o serviço da Amazon Prime Video e entrar com sua conta de assinante. Cópia em bom estado, com opções de legendas e áudio em português.

Baseado no livro do escritor irlandês Roddy Doyle, uma obra cult de 1986, “The Commitments” é uma pequena joia do cinema hollywoodiano, que une humor, boa música e a paixão pelo soul. Trata-se de um típico campeão da Sessão da Tarde. Sem grandes pretensões, mas que entrega uma narrativa inteligente e envolvente.

Na história, Jimmy Rabbitte (Robert Arkins) é um jovem de 21 anos que quer se tornar empresário e levar a soul music para Dublin. Ele defende a ideia dizendo que os irlandeses são os negros da Europa, e os dublinenses os negros da Irlanda. A semelhança reside no gosto musical e na questão social, pois o povo irlandês é da classe operária. Ou seja, ficar à margem na Europa e ser explorado no trabalho os aproximam da condição do negro nos EUA, guardadas as devidas proporções.

Após entrevistar dezenas de candidatos Jimmy forma a “The Commitments”, uma banda com músicos inexperientes, três vocalistas improvisadas e um egocêntrico como cantor.

Interpretando sucessos dos grandes astros da música, eles se apresentam nos pubs da cidade e logo conseguem alguma fama. Mas os desentendimentos também não demoram a aparecer, principalmente quando o veterano trompetista Joey (Johnny Murphy), que vive contando vantagem e jogando charme pra todo lado, arranja tudo para que Wilson Pickett se apresente com a banda e ele não aparece.

Um dos destaques do filme, claro, é a trilha sonora, em versões caprichadas de standars do gênero: “Mustang Sally”, “Chain of fools”, “Take Me to the River”, “In the Midnight Hour”, entre tantos. Vale a pena também ouvir os discos lançados à época, hoje disponíveis no streaming. Aliás, o filme de Parker é recheado de números musicais, quando os Commitments tocam em pubs e bares pé sujo em Dublin. A banda é bem azeitada, com naipe de metais, backing vocals carismáticas e o cantor com muito soul na voz.

Em resumo, “The Commitments – Loucos pela fama” é um filme para quem gosta de história bem contada e música bem tocada. Está na mesma linhagem de outro cult do mercado de home video, “The Blues Brothers” (1980), que no Brasil ficou conhecido como “Os Irmãos Cara-de-pau”. Esta é uma produção com direção de John Landis, além de John Belushi e Dan Aykroyd liderando o elenco nessa ode ao blues, soul e R&B. Comédia musical imperdível.

Cartaz do filme (Crédito: Divulgação)

MOSTRA
Em 1990, Alan Parker veio ao Brasil para participar da 15ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, quando “The Commitments” foi apresentado pela primeira vez em solo brasileiro. Segundo reportagem do jornal O Estado de S.Paulo, de 23 de outubro de 1990, esse filme custou US$ 15 milhões à época, um valor considerado baixo para os padrões de Hollywood.

Ao Estadão, o diretor disse que a música é fundamental em sua vida. Ele se interessou pelo livro de Roddy Doyle, a respeito de uma banda irlandesa, cujo repertório é soul. Outro componente mencionado por Parker é a dimensão social, quando o personagem que organiza o projeto diz que os irlandeses da classe operária e os negros americanos não se diferem entre si.

“Se fosse fazer um filme sobre a violência na Irlanda teria de ir a Belfast. Em Dublin, o rock é a coisa mais importante na vida dos jovens”, explicou ao jornal.

FANÁTICOS PELA SOUL MUSIC
Em seu canal no YouTube (@BarulhoAndreBarcinski), o jornalista, escritor, roteirista e documentarista André Barcinski explica que “The Commitments – Loucos pela fama” é um filme que conta a história de uma geração de jovens irlandeses, de Dublin, que são fanáticos pela soul music norte-americana dos anos de 1960, produzida pelas lendárias gravadoras Motown e Stax.

A princípo, pode parecer meio extravagante imaginar um grupo de irlandeses interessados por esse tipo de sonoridade. Mas o jornalista contextualiza, atentando para o fato de que tanto no Norte da Inglaterra quanto na Irlanda, havia uma base de fanáticos pela música feita nos EUA. Tanto é verdade que existe no Reino Unido, conforme Barcinski, um movimento chamado de Northern Soul. “São reuniões de jovens que, desde os anos 70, eram fanáticos pela Soul Music americana”, diz no vídeo, citando nomes admirados de artistas como Marvin Gaye, Wilson Pickett e Tina Turner. É uma produção que fez muito sucesso no Norte da Inglaterra e na Irlanda.

Nesse contexto, Barcinski destaca a identificação das personagens da classe média proletária de Dublin, no filme de Parker, com a música negra norte-americana. Principalmente em questões relacionadas à busca pela igualdade, pois a produção da Motown trazia alívio às dores dos negros nos EUA. Essas gravações atravessaram o Atlântico e encontraram ressonância no público irlandês, que tinha uma vida difícil no contexto político e econômico daquele período.

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