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Publicado em abril 28th, 2016 | por Jornal Correio do Cidadão

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O mais longo dos dias

O barulho das bombas, o cheiro do gás, a mordida dos cães, o sangue a jorrar e o golpe de cassetete parecem ainda ecoar em corações e mentes que testemunharam o dia 29 de abril de 2015. Nesta sexta-feira (29), completa-se um ano do violento episódio que manchou a história da educação no Paraná e, literalmente, o Centro Cívico, em Curitiba.

Naquele dia, milhares de professores da rede estadual de ensino e servidores públicos protestavam contra um projeto que tramitava na Assembleia Legislativa. Ânimos exaltados e o exagero policial transformaram a região do Centro Cívico em um campo de guerra. Vinte e nove de abril se tornou o dia mais longo do Paraná.

Para quem não viu (ou acha que não viu) o que ocorreu há exatos 12 meses, o documentário “29” reordena os acontecimentos do Massacre em uma narrativa forte, intensa e visceral, a partir de um ângulo de 180º. O dia 29 de abril é reavivado por meio de depoimentos de quem esteve lá e de imagens históricas, ambos colhidos pelo professor do Departamento de Pedagogia do campus Santa Cruz, da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro), Carlos Alberto Machado.

Produzido de maneira independente, “29” estreia nacionalmente nesta sexta-feira (29), logo após a cerimônia de reabertura do Cine Unicentro, a partir de 19h30, no campus Santa Cruz (rua Padre Salvador Renna, 875). A entrada é gratuita e aberta a toda a comunidade.

Em entrevista exclusiva ao CORREIO, Machado conta que boa parte das imagens utilizadas no documentário é de pessoas que fizeram o registro naquele dia. “Eu queria mostrar as imagens dessas pessoas, que estavam na linha de frente e conseguiram ângulos diferentes. Inclusive, o Fabio Tissot, um produtor de Curitiba, fez vários vídeos da parte de trás, onde estavam os policiais”.

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O diretor de ’29’, Carlos Alberto Machado (Cristiano Martinez/Correio)

Em primeira mão, a reportagem do CORREIO teve acesso a cenas do documentário. No meio das bombas e da confusão, atrás do escudo policial, de dentro do camburão… o espectador é posto no olho do furacão. A narrativa tensa de “29” apresenta diferentes pontos de vista sobre o confronto entre policiais e manifestantes, formando um registro ao mesmo tempo histórico e provocante. Afinal, é cinema em seu estado mais brutal.

ORIGEM
Assim como muitos professores da Unicentro e de Guarapuava, Machado participou das manifestações de um ano atrás. Ele recorda que ficou muito mal pelos acontecimentos em Curitiba, no confronto entre policiais militares e manifestantes.

“A impressão em mim foi tão forte que, naquele dia, eu resolvi que era necessário fazer um documentário. Queria que mais pessoas soubessem o que tinha acontecido”.

DURAÇÃO
No entanto, o documentário não podia ser feito somente em curta ou média-metragem. Era importante um longa com fotos, vídeos, depoimentos e explicações técnicas. “Fica difícil resumir um filme que tem uma grande quantidade de pessoas entrevistadas e imagens”.

À exceção de duas imagens, todas as outras foram conseguidas pessoalmente por Machado e salvas em seu arquivo pessoal. O objetivo era conseguir a autorização e um material de maior qualidade técnica para o filme.

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Proposta de filme é apresentar um ângulo de 180º do 29 de Abril (Jean Claude Lima)

Além das fotos e vídeos liberados, o cineasta também se preocupou com os direitos autorais das músicas utilizadas na trilha sonora do filme. Segundo ele, todas foram autorizadas para uso não-comercial.

Ele conta ainda que o processo de decupagem e edição foi bastante longo, tomando suas horas vagas. “Como não vivo de cinema, pois sou professor universitário, só podia utilizar meu horário livre para trabalhar em cima do filme”.

ESTILO
Dividido em quatro blocos, “29” tem um estilo de documentário cujo foco é nas entrevistas e nas imagens de arquivo. Enquanto as fotos e os vídeos foram captados junto a colaboradores, os depoimentos resultam de um trabalho de investigação de Machado, que viajou para diferentes cidades – Curitiba, Londrina, Maringá e, claro, Guarapuava – em busca de histórias.

Para fazer todo o trabalho, o diretor contou com a sua experiência de dez anos na TV. A prática nessa atividade serviu para que Machado definisse o estilo do longa-metragem. “Mas foi um desafio em todos os sentidos, pois eu só havia feito curtas-metragens até então”.

O material é formado por professores, estudantes e servidores públicos que testemunharam os fatos marcantes do dia 29 de abril de 2015. Inclusive, o diretor conseguiu colher o depoimento de uma estudante de Londrina que não havia dado entrevistas para mais ninguém. “Ela foi presa e, na época das filmagens, foi difícil até mesmo localizá-la em Londrina. Mas, graças a um contato, consegui entrevistá-la, cerca de dois ou três meses após o 29 de Abril”.

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Documentário marca a reinauguração do Cine Unicentro (Cristiano Martinez/Correio)

Nesse sentido, Machado reforça que o documentário é um material feito de maneira coletiva, com a colaboração do pessoal que cedeu as imagens e mais a participação dos entrevistados. “Na verdade, o projeto é NOSSO, pois se não fossem eles não teríamos esse documentário”, agradecendo principalmente às pessoas que deram seu testemunho.

CRÉDITOS FINAIS
Fãs dos filmes produzidos pela Marvel Studios, o cineasta reservou algumas surpresas para os créditos finais de “29”. “Eu tento fazer o público se segurar até o último minuto”, explicando que também é uma forma de valorizar todas as pessoas que participaram do processo de filmagens.

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(Jean Claude Lima)

EXIBIÇÕES
Após a estreia em Guarapuava, o filme “29” segue para Curitiba, onde será exibido neste sábado (30) em duas sessões – 14h e 19h – na Cinemateca. Machado diz que já tem convites para levar o filme até Londrina, em um congresso de psicologia; e outro para Paranaguá, em sessão na Unespar.

A intenção do cineasta não é de comercializar o documentário; mas sim de participar de festivais e distribuir o material para escolas. Somente depois é que o filme será disponibilizado em canais da internet como o YouTube.

Texto: Cristiano Martinez
Foto (capa): Jean Claude Lima

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