Arte como estilo de vida

Conheça a história do escritor Norbert Heinz e de Rita Felchak, uma das mais proeminentes artistas cênicas da famosa ‘terra do lobo bravo’

Quando estava no ensino fundamental, Norbert Heinz (32 anos) se destacava na língua portuguesa. Mesmo que a escrita não fosse das mais preparadas, o importante era a criatividade para as histórias contadas. 

A partir dos incentivos das professoras, o então garoto adentrava cada vez mais no mundo da leitura, escolhendo, às vezes, autores não tão comuns para a idade que tinha.

Por ter um irmão que também se interessava pela poesia, o jovem começou a levar mais a sério a questão da escrita. Porém, foi apenas no ensino médio que Norbert foi trabalhar de forma mais frequente seu lado literário. 

Com a participação em concursos de escrita, e a seleção em alguns deles, ele conta que começou a ter um foco maior para a poesia. Tempos depois, em 2007 e já na faculdade, a primeira coletânea de poesia foi publicada. O que o escritor não sabia era que em mais três anos de estudo, o seu primeiro livro seria lançado. 

Com a percepção de que o autor deve estar em todas as etapas de um livro, Norbert começou a aprender certas coisas destinadas à preparação do mesmo. Ele desenvolveu, assim, suas habilidades – principalmente na área da diagramação.

BIENAL

Movido pelo entusiasmo que o acompanhou depois das primeiras publicações, o escritor decidiu participar com um livro infantil, no ano seguinte, da Bienal do Rio de Janeiro. O evento foi positivo, conta ele, e o que aconteceu depois, já em Guarapuava, foi uma das situações meio desmotivacionais que ocorrem na vida da maioria dos escritores. 

Com o ânimo e o incentivo que conquistou após vender todos os livros na Bienal, Norbert decidiu circular em Guarapuava o mesmo conteúdo. Mas, de início, como muitas coisas da vida, a situação precisou ser melhor trabalhada. 

Por isso, ele destaca que sempre foi se aperfeiçoando, desde a diagramação até a capa, conseguindo realizar todo o processo, até a impressão. Sobre as capas, ele conta com orgulho que criou a maioria. Com um estilete na mão para o corte das imagens e a criação aflorada, Norbert vai construindo as faces de novas histórias. 

Além das professoras que o ajudaram a dar o pontapé inicial ainda no ensino fundamental, o autor fala sobre a importância das mulheres que o incentivaram durante a graduação. O curso realizado é pouco esperado quando falamos de um contador de histórias, mesmo assim, a biologia foi a graduação escolhida. O escritor salienta que sempre teve uma percepção aberta sobre essa questão e que o importante é a vontade de fazer o que se gosta. 

Durante a caminhada como escritor, um obstáculo sentido foi a dificuldade em conseguir vender livros de poesia. Dessa forma, Norbert precisou se adequar a outros estilos de escrita, como o infantil. Para isso, foi necessário que fizesse alguns questionamentos. Onde estaria o leitor que procurava?

A escola foi a resposta que encontrou, mas ainda assim, com os leitores encontrados e as ideias de inovação em mente, ele precisou se reinventar cada vez mais. A contação de histórias foi a chave que tanto procurava. Nasceu daí o personagem da cartola, que Heinz usa durante a contação das histórias.

REINVENÇÃO

Uma das coisas que o autor aprendeu nesses anos de experiência foi a facilidade que as crianças têm de expressar os seus gostos e o rápido feedback.

Por meio disso, ele percebeu que mesmo com o caminho percorrido, ainda ocorriam falhas. Então, a busca por formar leitores, além de ouvintes, começou. O projeto Tô no Livro levou três anos de aperfeiçoamento e surgiu a partir de uma oficina que Norbert realizava gratuitamente em 2017, quando começou a criar as impressões dos livros sozinho.

A mínima interferência nos textos das crianças é uma das regras que carrega, pois, para ele, “todo texto tem valor literário”. Nesse sentido, a ideia era passar uma atividade para que os jovens iniciassem na escrita com a maior liberdade possível. 

A comparação entre os textos dos alunos e a correção na frente dos mesmos impediria que eles pudessem usufruir daquele espaço de escrita e escreverem da maneira mais própria possível, relevando as ideias de cada um. 

Os livros produzidos hoje por Norbert ainda estão em evolução, mas ressalta que a qualidade está bem próxima aos livros de livrarias. Consequentemente, o retorno financeiro também aumenta. Para o escritor, nesses 13 anos de caminhada na profissão, foi possível “evoluir em uma base de 15 a 20 anos na literatura”.

INFLUÊNCIA

Durante o crescimento, o aspirante a escritor passava a maioria do tempo se dedicando as leituras. “Eu realmente fui criado mais com livros, não tinha acesso a TV, essas coisas. Então eram os gibis e a Coleção Vagalume que o meu irmão trazia da escola”, afirma Heinz. Por conta disso, o garoto já iniciou os estudos sabendo ler e escrever algumas coisas. 

Como resultado desses anos de trabalho, muitos livros foram sendo publicados, tantos que nem mesmo o autor se lembra do número exato. “Eu acredito que com as antologias e os livros de poesias, eu devo estar entre 70, 80, ou um pouquinho mais. Aí com as novas edições, o número se aproxima a 100”, comenta o escritor. 

IDADES

Norbert conta que está passando dos livros infantis para os juvenis, indo em busca sempre de mais leitores. Mas, segundo ele, as inovações não param por aí. 

A ideia é migrar do juvenil para o adulto e aí “ir experimentando os públicos e acompanhando esse leitor”, afirma o escritor. 

Assim, entre os caminhos da literatura, Norbert vai se habituando a novos espaços e buscando sempre incentivar a leitura, independentemente da idade. “Eu me considero um escritor operário, um escritor que forma leitores”, finaliza.

TEATRO 

Outra figura conhecida por muitos na famosa “terra do lobo bravo”, e que tem uma das mais proeminentes trajetórias no meio artístico de Guarapuava, é Rita Felchak (60 anos). 

Com mais de 37 anos de atuação – com teatros e inúmeros projetos culturais -, hoje o nome Felchak é referência com relação às artes cênicas na cidade. 

Essa caminhada, entretanto, não aconteceu do dia para a noite. Aliada à sua perseverança, a artista trabalhou com garra e esforço junto de seus familiares. 

Mesmo tendo começado nesta profissão quando adulta, com 22 anos, ela afirma que “foi um trabalho aceito e respeitado por toda a família”. 

Tendo entrado para o mundo cultural, as pessoas mais próximas também seguiram caminhos parecidos. Os dois filhos estão inseridos em profissões artísticas, assim como os irmãos e os sobrinhos. Para ela, a sua trajetória “revela não apenas a história de resistência de uma mulher artista numa sociedade conservadora e excludente. Revela uma família de artistas que compõem um conceituado grupo de pesquisadores e agitadores culturais do Paraná”.

O sonho de Rita e da família sempre foi desenvolver a cidade através da arte e da cultura, por isso, muitos projetos e apresentações fazem parte do extenso portfólio da artista. 

Foto: Arquivo Pessoal

Impulsionada pela paixão, a Cia. Arte & Manha foi criada em 1995 com o intuito de realizar e desenvolver projetos de teatro escola e teatro de bonecos. Mas, ao longo do tempo foi necessário que o grupo se tornasse uma produtora de eventos culturais.

Mesmo com todas as mudanças e processos que passou, Rita jamais deixou de morar em Guarapuava. Foi na cidade que a companhia conseguiu estabelecer com a comunidade guarapuavana uma relação mais próxima da arte.

PAPÉIS

Algumas das apresentações organizadas pela diretora tiveram um importante papel em movimentar o imaginário da população, como a Paixão de Cristo, realizada entre 2001 e 2010 e a Praça Mágica do Papai Noel, muito convidativa especialmente nesta época do ano. 

Nesse processo de consolidação de uma cultura rica em peças, Rita recebeu prêmios como autora, diretora e atriz em festivais de teatro, além de um reconhecimento internacional em virtude do projeto de arte-educação desenvolvido na cidade. 

Tendo participado de mais de 100 espetáculos, com peças autorais, a diretora relembra que ela e a sua trupe já estiveram no palco aproximadamente 7 mil vezes no decorrer dos últimos 35 anos. De acordo com Rita, essa é maneira como ela consegue “descobrir as mais variadas possibilidades de expressão”.

Por meio de todos os anos de estudo, criatividades e muito trabalho, é perceptível o papel da arte dentro de uma sociedade e, ainda, a movimentação que ela causa dentro do sujeito que se permite a conhecê-la. 

Sobre isso, Rita comenta que é justamente nesse processo que ela consegue “perceber que a arte é um concentrado de percepções sensoriais, sentimentos, ideias inquietantes, implosões que tentam reverberar ao mundo exterior algo que não se controla internamente”. Ou seja, um emaranhado de emoções que se deixam ser expressas por meio da arte.

*****Samilli Penteado, especial para CORREIO