Ricardo Pedrosa Alves lança novo livro de poemas em Guarapuava

A obra ‘Poemas baseados’ reconduz a poesia a uma pergunta direta sobre o fazer poético e sua relação usual com a originalidade. Todos os poemas do livro foram escritos ‘baseados’ em outros textos poéticos

Muitos poetas já investiram na seara da poesia criada explicitamente sobre a intertextualidade, ressaltando-a. O gesto é tanto uma afronta ao texto original e à condição de autoria, quanto também uma modéstia do autor final, que se debruça sobre outros textos e não sobre seu próprio umbigo ou identidade. Com o livro Poemas baseados (Curitiba: Kotter Editorial, 2018), Ricardo Pedrosa Alves sugere um questionamento irônico à poesia identificada à expressão pessoal. Trata-se de um ponto de ruptura com a poética anterior do autor, concentrada nos livros Desencantos mínimos (São Paulo: Iluminuras, 1996) e Barato (Curitiba: Medusa, 2011).

O livro Poemas baseados tem lançamento programado para Guarapuava, no próximo dia 22 de setembro, na livraria Gato Preto (rua Azevedo Portugal, 1.362, Centro), a partir de 17h. Haverá leitura de poemas e o lançamento de um projeto de Oficina de escrita (a ser realizado nos próximos meses). O livro será vendido a 34,90. Mas antes, o autor apresenta o novo livro em Curitiba, no dia 13.

A obra Poemas baseados reconduz a poesia a uma pergunta direta sobre o fazer poético e sua relação usual com a originalidade. Todos os poemas do livro foram escritos baseados em outros textos poéticos, o que põe em questão as principais noções comumente associadas à poesia, como autoria, originalidade, expressão pessoal e criatividade.

lambendo a imprópria língua

(Poema baseado em Lépida e leve, de Gilka Machado)

língua que me cativas

ó língua, em teu labor

língua-ideia, língua-sensação

ó minha louca língua

língua do meu amor

língua-lâmina, língua-labareda

língua-linfa

língua-cáustica, língua-cocaína

língua de mel, língua de plumas

ó lingua-lama, ó língua-resplendor

língua que me enleias

“Poemas baseados” é um livro que ironiza a autoridade do poeta. O livro baseado em outros poemas tem na retaguarda uma equipe toda radicada em Curitiba, onde fica a Kotter Editorial. O trabalho foi editado por Sálvio Nienkötter e Bárbara Tanaka, e tem um projeto gráfico preciso e precioso concebido por Jussara Salazar, além de contar com as fotografias de Sandro Luís Fernandes e João Urban.

O poeta Ricardo Pedrosa Alves (Governador Valadares, MG/1970), radicado no interior do Paraná, na cidade de Guarapuava, é professor universitário e pesquisador na área de Letras e Sociologia. Tem diversas publicações acadêmicas e textos criativos divulgados em várias revistas da área.

PESQUISA

Ao realizar seus poemas a partir de outros textos poéticos, com colagens, montagens, leituras e traduções, Ricardo Pedrosa Alves aprofunda uma pesquisa que se explicitou na poesia a partir do século 20. Um dos pontos fundantes desse procedimento é relatado pela teórica Marjorie Perloff, no livro O gênio não original. Perloff conta como a recepção do texto central de T. S. Eliot, The Waste Land, em 1922, foi marcada por uma polêmica. Ainda que elogiado, o livro foi bastante questionado quanto ao seu caráter citacional, o que, na visão dos críticos, reduziria em muito aquilo que se considerava como essência da poesia, isto é, a originalidade da voz pessoal do poeta.

Mais recentemente, ganhou corpo no campo poético a proposta de Kenneth Goldsmith, coeditor do livro Against Expression: An Anthology of Conceptual Writing. Goldsmith desenvolve a chamada Escrita não-criativa, ressaltando que o processo construtivo/destrutivo de elaboração de um texto é tão importante quanto sua forma final. Suas propostas, porém, tem no ready-made (como na famosa leitura de relatórios de trânsito para o presidente Barack Obama) e na internet grandes fontes de criação, o que é não é o caso de Ricardo Pedrosa Alves, na medida em que o poeta brasileiro opta por operar no campo da própria poesia, reconstruindo e desconstruindo artesanalmente cada poema matriz.

BRASIL

No Brasil, muitos poetas se aventuraram na reescrita poética, rediscutindo, parafraseando ou parodiando outros textos (e não apenas poemas). Por exemplo, Oswald de Andrade, no livro Pau-Brasil, recortando os cronistas coloniais. Ou Cecília Meireles, no Romanceiro da Inconfidência (às voltas com os “fantasmas” de Ouro Preto e dos poetas árcades). Podem ser citados também Murilo Mendes, Jorge de Lima (“Dante, falo por ti, por mim, por quem?”) e, entre os contemporâneos, há Mafra Carbonieri, Ricardo Corona, Glauco Matoso etc. Assim, Adriano Scandolara dessacraliza a poesia de Olavo Bilac (em Parsona), Mario Domingues reescreve alguns de seus próprios poemas (em Musga) e Roy David Frankel obtém poemas a partir da votação do impeachment da presidenta Dilma Rousseff (em Sessão).

A proposta conceitual do livro de Ricardo Pedrosa Alves é bastante diferente, pois todo o livro é composto a partir da pirataria irônica sobre o texto alheio. Relações intertextuais e citações disfarçadas sempre fizeram parte da poesia, o que impunha certo mistério à apreensão estética. “Poemas baseados” abre o jogo, expondo em notas de rodapé não apenas os textos matrizes como também o procedimento utilizado na conversão à forma final. Os poemas são todos referenciados no livro, o que elimina o mistério sobre quem estaria sendo citado e propõe o enigma conceitual, isto é, que processo foi utilizado para a sujeição do texto matriz a uma nova forma e conteúdo. Trata-se de uma operação que o leitor pode re-fazer através da comparação com os textos matrizes, o que dá ao livro um caráter simultaneamente lúdico (resolvendo o enigma) e pedagógico.

TEXTUAL

Sobre que material textual foi composto o livro Poemas baseados? Tudo começa pela orelha do livro, surrupiada de um texto de ninguém menos que Roland Barthes. Quanto aos poemas, o livro está dividido em quatro partes, do início ao fim dos tempos (o nosso tempo). Na primeira (Tabuletas de Marduca), o poeta re/escreve um poema babilônico, certamente um dos primeiros épicos da humanidade, indo ao início da codificação mítico-poética. Na segunda (Falsos Faustos), já às voltas com o sujeito da modernidade, Alves refaz o pacto fáustico já refeitos por Valéry e Pessoa e, como eles, prefere não terminar o refazer, num jogo de espelhos que não abdica da crítica cultural aos nossos tempos. De fato, a temática do Fausto é uma das mais retomadas na literatura mundial. Na terceira (Kurt Schwitters passou pela Terra ou Achados e Roubados), são reconstruídos/desconstruídos poemas diversos, na maior parte oriundos da poesia brasileira (como Gilka Machado, Cruz e Sousa, Dario Vellozo etc.).

Por fim, na quarta parte (Cair de costas), o autor dialoga com um poeta contemporâneo, Ronald Augusto. Ronald Augusto, aliás, continua o diálogo ao assinar o posfácio de “Poemas baseados”. Ao eleger referências tão múltiplas, não se constrói um cânone (algo como os melhores poemas a serem desmontados/remontados), mas uma opção pelo procedimento, pelo aspecto performático e concreto da construção poética, e nisso são contemplados desde a poesia de cordel às traduções (como a realizada sobre um poema de Aimé Césaire), desde o poema estrangeiro a autores menos conhecidos da poesia paranaense.

 

**********Matéria com acréscimo de informações às 10h de 13/09/2018