Quando a razão não é suficiente: a série ‘Além da Imaginação’

Produzida em três fases distintas, a série de TV ‘Além da Imaginação’ marcou época ao criar histórias que se passavam numa zona desconhecida, em um tempo infinito, desafiando assim a lógica humana

Um homem que encontra a si mesmo, mas diferente. Uma operária que vive uma realidade que não é a sua. Uma dona de casa que consegue paralisar o tempo. Um vendedor que não compreende mais a linguagem comum.

Tanto em um caso quanto no outro, a lógica humana é posta por terra, embaralhando as fronteiras entre o sonho e a realidade, entre o infinito e o espaço. Entra em cena uma zona do desconhecido e do insólito, onde tudo simplesmente é possível.

Baseadas nessa premissa, a CBS Broadcasting e a Television Syndication levaram ao ar, entre 1985 e 1989, a série de TV Além da Imaginação, título pelo qual ficou conhecida no Brasil. Mas, no nome original, era The Twilight Zone, ou seja, a Zona do Crepúsculo (em tradução livre).

Na verdade, o programa dos anos de 1980 era uma espécie de segunda fase, ou reboot, da clássica série dos anos de 1960, que fora criada por Rod Serling (1924-1975), famoso roteirista da TV norte-americana. Inclusive, a vinheta de abertura em 1985 tinha referências a sua predecessora.

Na série original, a famosa trilha sonora era acompanhada de um narrador, que dizia existir uma quinta dimensão além daquelas conhecidas pelo homem. É uma dimensão tão vasta quanto o espaço e tão desprovida de tempo quanto o infinito. É o espaço entre a luz e a sombra E se encontra entre o abismo dos temores e o cume dos seus conhecimentos. Essa é a dimensão da fantasia. Uma região que pode ser considerada… Além da Imaginação [A Zona do Crepúsculo].

Episódios dos anos 80 reunidos em DVD

O grande charme do enlatado americano era desafiar o ceticismo humano, com histórias de ficção científica repletas dos elementos do mistério, do terror e do extraordinário. Por isso, nesse contexto se tornava perfeitamente normal emergirem personagens às voltas com invasões espaciais, aparecimento de duplos, máquinas da fantasia, amuletos que mexiam com o tempo e até mesmo a perda da capacidade de se comunicar.

FASES

A primeira fase durou de 1959 a 1964, com 156 episódios ao longo de cinco temporadas. Tudo em preto e branco, com histórias fechadas em cada programa.

Já a segunda fase foi ao ar entre 1985 e 1989, durando três temporadas com 65 episódios. O detalhe é que os roteiros se baseavam em textos clássicos da ficção científica, terror e fantasia, de autores como Ray Bradbury, Stephen King, Arthur C. Clarke, George R.R. Martin.

Na direção dessa fase oitentista, nomes do calibre de Wes Craven (Pânico e A hora do pesadelo) e William Friedkin (O Exorcista e Operação França).

Entre 2002 e 2003, houve uma tentativa de reativar Além da Imaginação, com novos episódios narrados pelo célebre ator Forest Whitaker. Mas ficou só na intenção, uma vez que o programa durou apenas 44 episódios.

INFLUÊNCIA

Com o passar do tempo, a criação de Rod Serling se tornou cult e um verdadeiro clássico da televisão mundial, com direito a exibições em países como o Brasil.

Um dos filhos de Além da Imaginação é a série Amazing Stories, criada pelo diretor/produtor Steven Spielberg nos anos de 1980. Com a mesma premissa de histórias fantásticas que desafiam o raciocínio lógico, esse programa durou entre 1985 e 1987, com episódios marcantes e participações especiais de conhecidos atores hollywoodianos. A série só foi exibida em canal aberto, no Brasil, a partir dos anos de 1990 pela TV Globo.

Um dos episódios da fase dos anos de 1960 (Reprodução)

Até mesmo na teledramaturgia brasileira é possível identificar ecos de Além da Imaginação. A saudosa TV Manchete exibiu em 1994 uma série com um sugestivo título: Incrível, Fantástico, Extraordinário, cuja locução exagerada dava o devido impacto ao programa, exibido nas noites de quarta-feira.

A cada episódio, Incrível, Fantástico, Extraordinário apresentava uma história com muito suspense e mistério, como foi A Possessão e O Fantasma da Prostituta.

Não por sinal, a extinta emissora carioca exibiu também o enlatado americano Acredite se quiser (1982 a 1986). Apresentado pelo ator Jack Palance (1919-2006), o programa exibia casos reais de façanhas humanas e insólitas, que desafiavam a razão (e abusavam da verossimilhança, em tempos pré-fake news).

Em tempo: Manchete fazia parte do império de comunicação comandado pelo imigrante Adolpho Bloch (1908-1995). Em seus tempos áureos, o conglomerado de mídia detinha revistas (caso de Manchete) e emissoras de rádio. Mas quase tudo isso desapareceu, restando apenas a massa falida.

 

Abertura da fase dos anos de 1980

 

E a clássica abertura da série original