Para gostar de ler: gibis e personagens nacionais preferidos da galera
Nesta quarta-feira (30 janeiro), comemora-se o Dia do Quadrinho Nacional. Em alusão à data, o CORREIO ouviu fãs, especialistas e profissionais da área para saber qual gibi ou personagem produzidos no Brasil marcou sua vida
O primeiro herói do quadrinho brasileiro (em uma história seriada) é Nhô Quim, um jovem rico e simplório que protagoniza desventuras na Corte. O capítulo inaugural de As aventuras de Nhô Quim, ou impressões de uma viagem à Corte, de Angelo Agostini (1843-1910), foi publicado em 30 de janeiro de 1869 na revista Vida Fluminense.
Ao longo desses 150 anos de história, a produção brasileira legou personagens e gibis que marcaram gerações de leitores. Nesta quarta-feira (30 janeiro), comemora-se no Brasil o Dia do Quadrinho Nacional, uma justa homenagem inserida no calendário nacional a partir de 1984, graças à mobilização da Associação dos Quadrinistas e Caricaturistas do Estado de São Paulo (AQC-ESP).
Em alusão à data, o CORREIO ouviu profissionais do traço, especialistas e fãs que deram o depoimento sobre seus personagens e gibis nacionais marcantes em suas vidas.
TURMINHA
É difícil encontrar algum brasileiro que não tenha lido ou ouvido falar da Turma da Mônica, uma criação imortal de Mauricio de Sousa. Olha, o que realmente marcou foi a ‘Turma da Mônica’ e o personagem Cebolinha, diz o ilustrador e professor radicado em Guarapuava, Edenilso Benato.
Já o casal guarapuavano Junior Jaskulski e Juliana Lima também gosta da Turminha, mas com preferências distintas. Meu personagem nacional favorito é o Cebolinha. Gosto dele desde criança por causa dos ‘planos infalíveis’ que ele tem pra pegar o coelho da Mônica, afirma Junior, que é colecionador de action figures.
Por sua vez, Juliana é fã do simpático dinossauro Horácio. Gosto dele pelas questões reflexivas que ele levanta sobre a sua própria existência e sobre o mundo que o rodeia.
Outra figura marcante criada por Mauricio de Sousa é o ingênuo Chico Bento. Porque, ainda que traga uma visão estereotipada e romantizada do caipira, suas histórias são inocentes e traçam alguns aspectos da cultura nacional, declara a professora universitária Adriana Binati Martinez, baiana residente na terra do lobo bravo.
E, para o desenhista guarapuavano Rafael Feliczaki, a predileção é por todas as histórias em torno da Turma da Mônica. Me impressiona a simplicidade e criatividade das histórias e os personagens sempre me surpreendem de fazer rir alto em público.
PIRATAS
Nos anos de 1980, uma geração formada por artistas como Laerte, Angeli e Glauco tomou de assalto as páginas do quadrinho de humor produzido no Brasil.
Para o quadrinista curitibano José Aguiar, um dos criadores do herói paranaense O Gralha, seu gibi nacional favorito é Piratas do Tietê. Humor surreal e sem freio. Desenhos incríveis e uma brasilidade única nas temáticas urbanas. Uma HQ clássica seguida de perto pelas compilações de tiras do Níquel Náusea de Fernando Gonsales, diz, em conversa com a reportagem.
Nessa mesma linha, o guarapuavano Hamilton Junior, o Mirto, declara sua preferência pelas tirinhas da Laerte, principalmente aquelas estreladas pelo Overman. Ele é uma paródia escrachada de todo o arquétipo heroico das americanas Marvel e DC, explicando que o personagem precisa conviver com o jeitinho brasileiro.

nos anos de 1980 (Foto: Reprodução)
ECLETISMO
Para outra parte dos entrevistados, a escolha é bastante diversificada. Fã do norte-americano Justiceiro (da Marvel), Cesar Henrique Quadros encontrou no brasileiro Doutrinador um correspondente interessante. Além de ter uma temática similar ao Justiceiro, Rorschach e outros vigilantes anti-heróis dos quadrinhos, ele [Doutrinador] traz ao público várias histórias que se encaixam muito com a realidade do Brasil.
Por sua vez, o ilustrador e designer Tiago Silva recomenda a obra Bulldogma, de Wagner Willian, publicado pela editora Veneta em 2016. Essa história tem tantas camadas, tantas nuances, tantas referências colocadas de uma forma tão precisa, que eu sempre tenho a impressão de estar nela, junto da Deisy Mantovani (protagonista da HQ), tentando descobrir como todas aquelas situações surreais estão acontecendo.
Para o desenhista João Ovitzke, o que marcou sua vida foi o trabalho de um desenhista brasileiro: Mike Deodato Jr. Segundo o artista radicado na terra do lobo bravo, um material ilustrado por Deodato Jr. (Lady Death) marcou sua vida nos anos de 1990. Quando eu vi a revista na banca, e olhei para a assinatura, eu sabia que aquele nome só poderia ser de um artista brasileiro. O estilo era totalmente americano, mas o artista era brasileiro. Eu folheei a revista por um instante e fiquei impressionado com a arte, a narrativa, a temática apocalíptica.
E, para o ilustrador e quadrinista curitibano Antonio Eder, outro coautor de O Gralha, o mundo das HQs se abriu com uma publicação nacional de terror (mas com histórias estrangeiras): Superalmanaque de Kripta: humor negro, publicado em abril de 1980 pela RGE. As histórias realmente eram de humor negro, mas incrivelmente assustadoras e para uma criança de 7 anos foi um passaporte para um mundo incrível com artes espetaculares e histórias super bem narradas.
Essa história ['Bulldogma'] tem tantas camadas, tantas nuances, tantas referências colocadas de uma forma tão precisa, que eu sempre tenho a impressão de estar nela, junto da Deisy Mantovani (protagonista da HQ), tentando descobrir como todas aquelas situações surreais estão acontecendo
– Tiago Silva
EVENTO
Para quem estiver em Curitiba nesta quarta-feira (30 janeiro), Dia do Quadrinho Nacional, uma pedida é conferir o lançamento do livro Malu – pequena, comum e extraordinária, de José Aguiar, na Gibiteca, que fica no Solar do Barão (rua Carlos Cavalcanti, 533, Centro). A entrada é gratuita.
A partir de 19h, tem abertura da exposição ‘Malu – pequena, comum e extraordinária’ e palestra com o autor; às 20h, o debate Quadrinhos e adolescência; e, às 21h, autógrafos do livro (que será distribuído gratuitamente somente no local).