Guarapuava, 25 de agosto de 2019
#curta!

Depois que caiu em domínio público, a obra do escritor Monteiro Lobato vem sendo relançada em 2019 por diferentes editoras, em edições especiais. A Sesi-SP, por exemplo, programou o lançamento integral, com espaço até mesmo para o polêmico ‘Caçadas de Pedrinho’

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Adaptado, ilustrado e censurado. Em 2019, Monteiro Lobato (1882-1948) está assim nas estantes de livros por todo o país. Depois que a sua obra literária caiu em domínio público - em 1º de janeiro deste ano -, as editoras começam a apresentar seus projetos de republicação das obras mais populares do escritor, principalmente a infanto-juvenil.

É que sem a obrigação de pagar direitos aos herdeiros de Lobato, as casas editoriais voltaram a investir com força no universo ficcional do Sítio do Pica Pau Amarelo. De textos integrais a versões em quadrinhos, tem livros para todos os gostos. Mas isso não quer dizer que ficaram mais baratos, pois são cuidadosas edições que exigiram alto investimento com ilustradores, consultores e acabamento gráfico.

A dúvida é saber se os leitores das novas gerações estão interessados em se aventurar nesse universo povoado pela Emília, Pedrinho, Narizinho, Dona Benta, Tia Nastácia e companhia limitada. Afinal, os pequenos de hoje já nascem com o smartphone na mão e outra concepção de leitura.

Ao final de 2018, o PublishNews, maior portal sobre mercado livreiro do Brasil, pesquisou na Nielsen a situação de vendas dos livros de Monteiro Lobato. No levantamento, o site se baseou na ferramenta Bookscan, que é responsável por monitorar as vendas de livros em livrarias, supermercados e lojas de autoatendimento no país.

Desde 2013, quando se deu o início da operação do Bookscan por aqui, e até o último dia 9 de setembro, os estabelecimentos monitorados pela Nielsen movimentaram 131 ISBNs diferentes do autor. Ao todo, nesse período, foram vendidos 264.182 exemplares, o que redundou em faturamento de R$ 8,3 milhões.

O Saci foi ilustrado pela portuguesa Catia Vidinhas (Foto: Reprodução)

COMPLETO

Uma das casas que começa a publicar a obra de Monteiro Lobato é a Sesi-SP Editora. A partir deste mês de fevereiro, a empresa põe no mercado a obra completa do autor: desde os títulos mais populares até aqueles pouco conhecidos como “Emília no País da Gramática”, “Aritmética da Emília”, “Geografia da Dona Benta”.

Segundo informações do PublishNews, até julho serão 27 títulos à disposição do leitor.

O projeto gráfico da coleção foi pensado por Raquel Matsushita e os volumes chegarão aos leitores com ilustrações de artistas brasileiros consagrados como é o caso de Psonha, Guazzelli, Mariana Massarani e Ionit Zilberman. Além deles, 11 ilustradores portugueses trazem um novo olhar sobre a obra de Lobato.

A editora optou por manter os textos originais do autor e as questões polêmicas constantes serão contextualizados e explicados pela professora Tâmara de Abreu, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Algumas publicações trarão ainda notas que esclareçam os principais pontos que poderiam incorrer em dúvidas, preconceitos ou erros didáticos.

Ilustrações do brasileiro Guazelli para
'Dom Quixote das crianças' (Foto; Reprodução)

POLÊMICA

Por falar em questões polêmicas, nos últimos anos ocorreu uma verdadeira cruzada ideológica contra a obra de Monteiro Lobato. De clássico da literatura, o autor se transformou em persona non grata pelos textos carregados de racismo e misoginia.

Por exemplo, o livro “Caçadas de Pedrinho”, um dos mais populares de Lobato, entrou pra “lista negra” de professores e especialistas no assunto. Motivo: a obra de 1933 narra uma expedição formada por personagens do Sítio à caça de uma onça. Além de não pegar bem matar um animal em extinção, a narrativa utiliza termos racistas para se referir a Tia Nastácia.

Assim, leituras contemporâneas do livro fizeram campanha para boicotar a obra e, em 2010, um parecer do Conselho Nacional de Educação recomendou a não distribuição da obra em escolas públicas.

Nessa leva de novas edições, “Caçadas de Pedrinho” é uma das obras de Lobato que, por enquanto, está praticamente excluída do mercado. Uma das poucas editoras que decidiram trabalhar com o título neste ano é a Sesi-SP.

Já no caso da versão em quadrinhos de “Narizinho Arrebitado” (ed. Girassol) com personagens da Turma da Mônica, Mauricio de Sousa e Regina Zilberman preferiram fazer alterações no texto original, retirando os pontos negativos. “Buscamos dar um tom contemporâneo, trocando palavras que não são mais usadas porque saíram de moda ou porque tinham uma carga de preconceito”, contou Regina, em entrevista ao jornal “O Estado de S.Paulo”.

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