O universo de ‘O meu pé de laranja lima’ encanta gerações de leitores há quase cinco décadas

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A história é bem simples: Zezé vive em uma família muito pobre, na zona norte do Rio de Janeiro. Arteiro, o moleque de quase 6 anos de idade tem o diabo no corpo e apanha de todo o mundo: pai, irmãos, vizinhos etc. O seu único consolo é um pé de laranja lima, que lhe serve de confidente. Até que surge Manuel Valadares, o Portuga. De “inimigo”, o imigrante português se torna o melhor amigo de Zezé.

Há quase 50 anos, a trajetória desse menino tem encantado gerações de leitores no Brasil. Publicado em 1968, o romance O meu pé de laranja lima já vendeu mais de 2 milhões de exemplares ao longo de 150 edições, rompendo fronteiras nacionais até chegar a 23 países.

A versão mais recente do livro saiu este ano pela editora Melhoramentos em uma edição comemorativa. A capa ficou a cargo de Laurent Cardon; mas as ilustrações internas recuperam o material clássico feito por Jayme Cortez nas primeiras edições.

Texto revisado e acrescido de notas explicativas (de Luiz Antonio Aguiar), a versão atual de O meu pé de laranja lima mantém a essência da narrativa criada por José Mauro de Vasconcelos (1920-1984): a descoberta da dor e da ternura, em uma espécie de rito de passagem da fantasia para a dura realidade.

O estilo de escrita de Vasconcelos é bastante simples e sem segredo, com metáforas utilizadas de maneira direta. Mas que funcionou a contento ao longo desses 50 anos, justificando a permanência desse romance infantojuvenil no mercado livreiro do país.

Talvez o grande segredo de sucesso da história de Zezé é a sinceridade do relato. Narrado pelo próprio protagonista, o livro descortina um universo de ingenuidade, imaginação e descobertas. Afinal, trata-se de uma criança de apenas 6 anos, cuja visão de mundo é adequada a seu desenvolvimento cognitivo.

Não por sinal, sua perspectiva é permeada pela imaginação, projetando seu eu em uma árvore frutífera, como é o caso do tal pé de laranja lima.

Edição comemorativa do livro (Reprodução)

AUTOBIOGRÁFICO

Repleto de tintas autobiográficas, o livro se baseia na própria experiência do autor. O personagem principal é conhecido apenas pelo apelido Zezé, que é uma forma carinhosa de se referir a José, por acaso o primeiro nome do escritor. O pai do protagonista utiliza o sobrenome Vasconcelos, outra referência.

E, no último capítulo, o narrador já adulto faz uma declaração de amizade a Manuel Valadares, o querido Portuga da história.

Por tudo isso, é possível afirmar que O meu pé de laranja lima bebe na vida do autor para transformá-la na ficção estrelada pelo moleque Zezé. Assim como José Lins do Rego em Menino de Engenho (1932), Vasconcelos constrói um livro sincero, colado em uma experiência pessoal.

Aliás, o autor de infantojuvenil dizia que a sua facilidade de comunicação tinha a ver com ele mesmo. É a minha personalidade que está se expressando na literatura, o meu próprio eu.

PORTUGA

Ao lado do pezinho de laranja lima, o Portuga se torna o escape da vida de violência infantil e miséria de Zezé. Com a diferença de que Manuel Valadares é de carne e osso.

Porém, a relação entre o menino e o homem começou de maneira tensa, com a tentativa do protagonista de morcegar (pegar carona) no carro do Portuga. Depois, os dois se entendem e o leitor se encanta com a amizade de ares paternais entre eles.

CONTINUAÇÕES

O protagonista Zezé teve continuidade em dois outros livros de Vasconcelos: Doidão (1963), no qual Zezé é retratado com 19 para 20 anos; e Vamos aquecer o sol (1974), que retrata o menino aos 10 anos, vivendo com pais adotivos em Natal, Rio Grande do Norte.

ADAPTAÇÕES

O sucesso nas livrarias e bibliotecas fomentou o surgimento de adaptações para TV e cinema de O meu pé de laranja lima. A mais recente foi lançada em 2012 pelo diretor Marcos Bernstein.

Na pele de Zezé, o ator João Guilherme Ávila; e José de Abreu como o Portuga. Ao invés do Rio de Janeiro, a ação se passa no interior de Minas Gerais.

Mas a versão clássica do livro é de 1970. Com direção de Aurélio Teixeira, o longa traz Júlio César Cruz no papel de Zezé e o próprio diretor é o Portuga.

Para a TV, foram três adaptações em telenovelas: uma na extinta Tupi e duas na Bandeirantes.

E, em 2003, uma versão em quadrinhos, mas publicada na Coreia do Sul.

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