As filhas bastardas do conde Drácula ainda continuam dando o que falar. O vampiro mais famoso do universo ficcional deixou um problemão que atende pelo nome de Anya. Em sua ânsia por sangue em terras tupiniquins, a jovem é sadicamente violenta, não tendo qualquer tipo de remorso ou frescura em seus assassinatos.
Mais do que isso, Anya é a mais nova criação dos quadrinistas brasileiros Laudo Ferreira e Lillo Parra. A personagem acaba de estrear nas páginas da clássica revista Mestres do Terror #67, já disponível em Guarapuava.
Em entrevista exclusiva ao CORREIO, Laudo explica que a vampira hardcore surgiu inspirada nas lendárias sugadoras de sangue dos quadrinhos: Mirza, Nadia e principalmente Naiara, criação da Helena Fonseca e do Nico Rosso.
As histórias [de Anya] se passam no Brasil, pois apesar de sua ascendência ligada aos Cárpatos, terra do papai conde vampiro, sua mãe era brasileira. Isso será contado nas próximas histórias, explica Laudo. São aventuras seriadas, em que cada episódio tem vida própria.
Na verdade, a série Anya, a filha de Drácula encabeça um universo de monstros clássicos em desenvolvimento por Laudo e Lillo. Como é o caso, por exemplo, de A coisa do Tietê, que também estreou na edição 67 da Mestres…. Mas com roteiro de Lillo e desenhos de Will.
Colaborador de José Mojica Marins (o criador de Zé do Caixão), Laudo Ferreira começou a desenhar e escrever profissionalmente nos anos de 1980, na extinta editora Press. De lá para cá, ele se popularizou com personagens como a Tianinha, a trilogia Yeshuah e Cadernos de Viagem. Isso sem contar os prêmios HQ Mix e Ângelo Agostini recebidos ao longo de sua carreira.
A seguir, os principais trechos da entrevista com o quadrinista.

Em ‘Mestres’ #67, não rolou a parceria clássica com o Omar Viñole?
Eu e o Omar trabalhos juntos durante 20 anos. Muito tempo. Criamos o Estúdio Banda Desenhada e, nesse tempo todo, muito produzimos, tanto nos trabalhos encomendados, quanto nas produções de HQs. Mas chega um momento que é preciso mudar o rumo, respirar coisas novas e armar outras possibilidades. Por fim, encerramos as atividades do Estúdio Banda Desenhada e nossa parceria no ano passado. Claro, continuamos muito amigos, sempre. O Omar é o artista, o parceiro que melhor conhece meu trabalho. Mas é preciso mudar, é saudável.
Já algum tempo venho produzindo trabalhos sem o Omar, como Dedos mágicos que fiz com roteiro do Marcatti, Olimpo tropical que tem roteiro do André Diniz e uma boa quantidade de pequenas HQs que colaborei para diversas publicações.
Mas sim, eventualmente nos juntamos para fazer alguma coisa bacana, como o caso de Cadernos de Viagem, lançada no final do ano passado.
Aliás, a personagem Anya ilustra também a capa da ‘Mestres’ #67, rompendo com o padrão clássico da revista. Como foi o desenvolvimento dessa ilustração?
Não pensei em coisas como rompimento quando fui fazer a capa, na realidade não me atentei a isso, confesso, simplesmente imaginei a ideia para capa, uma brincadeira em cima da HQ da Anya e a fiz. Na capa vemos algo mais explicitamente mostrado, onde na história é apenas sugerido. Ou seja, a capa mostra a vampira fazendo um selfie com sua vítima, e na HQ é apenas mostrado a foto.
Me fale sobre a experiência de colaborar com a nova fase da ‘Mestres’, que, junto com a ‘Calafrio’, passou a ser editada pelo Daniel a partir de 2015.
Curiosamente colaborei com o Rodolfo Zalla (1931-2016) em um dos últimos números que fez a edição antes de falecer, não me recordo agora qual o número, mas foi na Calafrio, com uma HQ de humor negro com roteiro do Daniel Esteves. Na ocasião, Zalla havia me pedido histórias para futuras edições, infelizmente faleceu no meio desse caminho. Colaborar agora com essa nova fase capitaneada pelo Daniel Saks é, de certa forma, dar uma continuidade ao combinado com o mestre lá atrás. Mas o que mais me seduziu a participar, gerar essa série da Anya, foi o fato dessas revistas atingirem uma camada de público diferenciado, dentro da distribuição feita pelo Daniel. Quando comentou comigo que as revistas vendiam razoavelmente bem em alguns postos beira de estrada, aquilo deu um tremendo estalo na minha cabeça, pois aí está um dos públicos mais interessantes para se produzir esse gênero de HQs, aqueles que irão curtir simplesmente pela boa leitura, pelo entretenimento, aquilo que comentei anteriormente, pois é uma meta a ser buscada e alcançada: sair do nicho e galgar novos públicos.
Por falar em personagens femininas, você retornou recentemente com a Tianinha, um de seus sucessos. Como é voltar com ela? As histórias estão com outra pegada?
A série original da Tianinha encerrou em meados de 2009, com um bom sucesso entre seus leitores e fãs, acredito que até deixou uma lacuna nos fãs do gênero quadrinhos eróticos. Porém, na ocasião, alguns meses antes de encerrar a série, já sentia que a coisa toda caminhava para o fim e foi o que aconteceu. Nos anos que se seguiram, eu não tinha mais nenhum interesse em trabalhar com esse gênero de quadrinhos, como ainda não tenho, pois reflete um período de minha carreira que ficou para trás, e nessa não pensava em voltar a desenhar a personagem. Porém de uns três anos para cá, aproximadamente, várias pessoas vinham falar sobre a importância da personagem, pela questão da atitude, do fazer o que quisesse sem culpa, principalmente mulheres. A gota d’água foi uma conversa que tive com algumas adolescentes que foram assistir a uma palestra minha numa biblioteca aqui em São Paulo. Foi uma verdadeira descarga energética, pois disseram ser fãs da personagem e que tinham suas HQs como objetos de estudos para seus próprios projetos de quadrinhos, por todas essas questões que comentei aqui. Junta-se a isso, todo esse momento que estamos vivendo onde as mulheres cada vez mais vem abrindo nossos olhos, os olhos dos homens para como podemos enxergar a vida de outra maneira estando junto com elas e não colocando as mulheres como submissas, inferiores, enfim, muita coisa que estamos carecas de saber e fazer. Por tudo isso e mais, a personagem pode ajudar em muita coisa, ainda sendo sensual, ainda tendo erotismo em suas aventuras, mas com um infinito leque de possibilidades.

Fora essas questões, queria há algum tempo, trazer a Tianinha para o universo que carrego hoje de contar histórias, o mesmo autor que produziu a trilogia Yeshuah, Questão de Karma, Cadernos de viagem, entre outras coisas, pode produzir a Tianinha, sendo erótica, trazendo uma bola leitura, para homens, mulheres, qualquer gênero. Tianinha em si, tem um potencial muito maior do que foi feito durante sua série para revista Sexy Total, então a ideia está jogada, a série lançada, vamos ver o que nos espera.
Quais são os próximos lançamentos? O que você tem preparado?
Agora no final do ano, sai aqui e em Portugal, respectivamente pelas editoras Jupati e Polvo Edições, Olimpo tropical, parceria minha com o André Diniz, que escreveu o roteiro. Trata-se de um trabalho denso, mas carregado de uma dura poesia que nós brasileiros trombamos o tempo todo. A HQ conta a busca por uma escalada social dentro de uma favela carioca de um menino, de um adolescente, suas opções, muitas possibilidades, escolhas. A vida. Um belo roteiro do André o qual tive o imenso prazer de desenhar.
SERVIÇO
As revistas Calafrio e Mestres do Terror (R$ 15 cada) são encontradas em diversos pontos de venda em Guarapuava: Gato Preto – Discos e Livros (rua Azevedo Portugal, 1.362), Posto Panorâmico (rodovia BR 277) e Prima Banca (av. Prefeito Moacir Julio Silvestri, 901, sala 2). E ainda por e-mail ([email protected]).
Para saber mais sobre a produção de Laudo Ferreira, acesse seu site.
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