‘Anos Incríveis’, uma série que marcou uma geração de brasileiros
No segundo episódio da série semanal do CORREIO, um mergulho nostálgico no programa de TV que completará 30 anos em 2018. No início de 2017, o cultuado programa foi lançado pela primeira vez em DVD no mercado brasileiro
Era o ano de 1968. Em um subúrbio tipicamente norte-americano, um menino de 12 anos de idade deixa de vez a infância para trás ao descobrir um mundo cheio de amor, amizades e surpresas. Tudo é revelado pela versão adulta de Kevin Arnold, que narra uma época dourada, de tempos incríveis.
No início dos anos de 1990, a TV Cultura apresentava essa história por meio da exibição da série Anos Incríveis (The Wonder Years). Ao lado do original Castelo Rá Tim Bum, o enlatado protagonizado por Kevin talvez tenha sido o melhor programa exibido pela emissora paulistana na década noventista.
Produzida entre 1988 e 1993, a série criada por Carol Black e Neal Marlens durou seis temporadas e foi reprisada à exaustão na grade de programação da TV Cultura, criando uma verdadeira legião de fãs brasileiros. Hoje essa turma está na casa dos 35/40 anos de idade.
Muito antes de Stranger Things e do surgimento do streaming, era na velha tevê de tubo que os adolescentes dos anos 90 se divertiam acompanhando diariamente as aventuras de Kevin (e família Arnold), Paul Pfeiffer (seu melhor amigo) e Winnie Cooper (o grande amor do protagonista).
Infelizmente, o público brasileiro sempre ficou condicionado às reprises da TV para rever seus episódios favoritos. À exceção de cópias caseiras (em disco ou no Youtube), Anos Incríveis nunca chegou ao mercado nacional de home video. Lendas urbanas sempre explicaram que a falta de acerto legal impedia o lançamento oficial nas mídias. Por enquanto, nem a Netflix dispõe das temporadas da série em seu acervo online.
Esse cenário só mudou no início deste ano, quando a distribuidora Vinyx Multimídia lançou em DVD as duas primeiras temporadas do programa, com a dublagem clássica dos anos de 1990 e a opção de áudio original (com legendas). Passados 11 meses, os fãs já têm disponíveis todas as temporadas em caixas individuais; ou num megabox formado por 23 discos (e que sai pela bagatela de R$ 499,9 em média).

CHARME
Sem pirotecnia, grandes perseguições ou referências nerds, o grande segredo do sucesso de Anos Incríveis é o seu charme na abordagem do cotidiano comum de um garoto suburbano.
Kevin Arnold não é perfeito e, por isso mesmo, permite a identificação imediata com o jovem espectador. Na descoberta do mundo dos adultos, o personagem erra e acerta, vivendo amores possíveis e sonhando com os impossíveis. Na escola, no trabalho ou em casa, o protagonista vivencia experiências que o fazem amadurecer.
Tudo isso pontuado pelo narrador (na voz do ator Daniel Stern), que é uma versão já adulta do Kevin. Talvez essa seja a grande sacada da estrutura narrativa de Anos Incríveis: o olhar para o passado com a sabedoria do presente.
No entanto, não é um tempo qualquer, já que a trajetória de crescimento do protagonista se confunde com o pano de fundo histórico. Testemunha da história, o garoto acompanha grandes mudanças sociais e culturais nos Estados Unidos, como a Guerra do Vietnã e a corrida espacial (que culmina na chegada do homem à Lua).
ELENCO
O elenco era formado por Fred Savage (Kevin Arnold), Dan Lauria (Jack, o pai) Alley Mills (Norma, a mãe), Olivia d’Abo (a irmã), Jason Hervey (Wayne, o irmão mais velho), Josh Saviano (Paul, o melhor amigo) e Danica McKellar (Winnie Cooper, a namoradinha).
Mas teve algumas participações especiais, como os ainda jovens Juliette Lewis, Alicia Silverstone, Soleyl Moon Frye (a Punky), David Schwimmer (o Ross de Friends).

TRILHA
Logo na abertura, Anos Incríveis já impactava o espectador com o soul incendiário de Joe Cocker (1944-2014) para a canção With a Little Help from My Friends, uma canção registrada originalmente pelo baterista Ringo Starr no disco Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band (1967), dos Beatles.
Nos anos 90, boa parte dos fãs brasileiros da série de TV nem tinha ideia de que tal música era do quarteto de Liverpool. Não deixa de ser verdade, já que Joe Cocker produziu uma releitura bastante distante dos arranjos originais dos Beatles. É como se o saudoso cantor tivesse tomado With a Little Help from My Friends para si.
Aliás, toda a trilha sonora dos episódios da série se destaca, com artistas seminais dos anos de 1960/70, época em que se passa a história: Van Morrison, Marvin Gaye, Bob Dylan, Muddy Waters, The Everly Brothers, James Taylor etc. Assim como a vida de qualquer pessoa, cada lance na história de Kevin e cia. é marcada por uma canção.
******Abertura original, na voz de Joe Cocker