Uma noite para Marina: quando a memória continua dançando

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Na noite de 15 de agosto, o palco do Teatro Municipal Marina Karam Semaan Primak recebeu o 3º Tributo à Marina, uma apresentação concebida para celebrar sua vida, sua ligação com a dança e, sobretudo, tudo o que continua florescendo a partir de sua história. Artistas, grupos culturais, parceiros, apoiadores, familiares e uma plateia profundamente emocionada reuniram-se não apenas para recordar a pequena bailarina, mas para testemunhar a força de uma presença que o tempo não conseguiu apagar.

Há noites que terminam quando se apagam as luzes do palco. Outras permanecem acesas dentro de nós muito depois do último aplauso. A noite do 3º Tributo à Marina pertence a essas últimas. Foi um encontro entre memória, arte, amizade e gratidão, no qual o teatro deixou de ser apenas palco e plateia para se transformar em um lugar onde a saudade pôde conviver com a beleza e onde aquilo que foi interrompido encontrou novas maneiras de continuar.

No centro de tudo estava Marina.

O tema escolhido para a apresentação foi “Sonhos de uma Menina”. Embora a família soubesse que o espetáculo seria inspirado nos sonhos de Marina, todo o enredo, as coreografias e os figurinos foram cuidadosamente mantidos em segredo. Nem mesmo aqueles que mais de perto conheceram seus desejos conseguiram imaginar a delicadeza e a grandiosidade do que seria apresentado. A cada nova cena, o palco revelava uma surpresa e dava forma, por meio da dança, àquilo que antes existia apenas na imaginação de uma menina.

O enredo percorreu lugares que Marina sonhava conhecer e nos quais certamente gostaria de ter dançado. Também encontrou inspiração nas origens que compunham sua própria história familiar. Descendente de árabes, ucranianos e italianos, Marina teve suas raízes representadas no palco em diferentes ritmos, movimentos, cores e tradições. Assim, o espetáculo transformou em dança não somente os países e as culturas que ela desejava conhecer, mas também a herança que já vivia dentro dela. Cada coreografia parecia conduzi-la simbolicamente por uma parte desse mundo sonhado.

Entre os momentos mais comoventes da noite esteve o vídeo criado e produzido por Anariel Kronemberger Sanchez, oferecido como um presente ao espetáculo e a todos nós. Por meio dele, pudemos ver Marina adulta. Até aquela noite, essa imagem existia apenas em nossa imaginação, na forma íntima como cada um tentava adivinhar seu rosto, seus gestos e a mulher em que ela teria se transformado. Anariel deu forma, com sensibilidade e respeito, ao futuro que não pudemos acompanhar e nos permitiu contemplar, diante de nossos olhos, a Marina que tantas vezes procuramos imaginar: ainda ligada à dança, dona da mesma delicadeza e seguindo os caminhos que seu talento certamente lhe teria aberto.

Para a família, que também não sabia o que seria apresentado, a emoção foi ainda mais profunda. Foi difícil conter as lágrimas diante daquela Marina que, até então, somente conseguíamos ver dentro de nós. Não havia apenas tristeza, mas também a emoção de encontrá-la daquela forma e a certeza de que ela não permanece somente na lembrança daqueles que a amaram. Marina continua presente nas pessoas que reúne e nas vidas alcançadas pelas ações realizadas em seu nome.

O Tributo não nasceu para fazer da dor o centro da memória de Marina. Sua razão de existir é permitir que todo o amor que permaneceu encontre um destino e continue produzindo beleza, oportunidades e esperança. Onde a ausência poderia impor silêncio, a dança devolve movimento. Onde poderia restar somente saudade, surgem crianças aprendendo, artistas criando, professores ensinando e sonhos encontrando condições para seguir adiante.

A realização dessa noite contou com pessoas e instituições que compreenderam a profundidade desse propósito e decidiram fazer parte dele.

O Estúdio de Dança Bruna Pacheco trouxe ao palco sua arte e sua sensibilidade por meio de uma apresentação inspirada na cultura árabe, representando uma das raízes familiares de Marina. Sua participação integrou com delicadeza o percurso construído pelo espetáculo e ajudou a contar, por meio do corpo e da música, aquilo que as palavras dificilmente conseguiriam expressar.

Também estiveram presentes dois patrimônios vivos da história cultural de Guarapuava: o grupo folclórico italiano Anima e o grupo ucraniano Wolyn. Suas apresentações ultrapassaram a beleza coreográfica. Elas recordaram que uma comunidade também é feita das histórias que preserva, das tradições que transmite e das gerações que ensina a reconhecer suas origens. Em uma noite dedicada à memória e à continuidade, a presença de grupos que mantêm vivas tantas identidades culturais adquiriu um significado ainda mais especial.

Nenhuma apresentação dessa dimensão, entretanto, nasce apenas no palco. Por trás de cada cena, cada figurino, cada música e cada luz, existe uma rede de pessoas e instituições que escolheu acreditar no valor dessa homenagem.

À Cresol, dirige-se um agradecimento muito especial. Seu apoio financeiro foi primordial para que o Tributo alcançasse a qualidade artística e estrutural apresentada ao público. Sua contribuição não representou apenas o patrocínio de um espetáculo: ajudou a preservar uma história, fortaleceu o trabalho do Instituto e tornou possível ampliar o alcance de uma obra que transforma a memória de Marina em oportunidades concretas para outras crianças.

Foto: Assessoria

A empresa ICTUS, de Guarapuava, também se somou a esse esforço por meio de apoio financeiro e administrativo indispensável. Sua participação ajudou a transformar o projeto em realidade, oferecendo organização, confiança e suporte a uma iniciativa que exigiu meses de dedicação, responsabilidade e cuidado.

À Freeway Som, fica o reconhecimento por todo o trabalho de sonorização e iluminação. Sua estrutura permitiu que cada movimento ganhasse presença, que cada música envolvesse a plateia e que cada cena recebesse a atmosfera necessária. Naquela noite, a técnica esteve a serviço da emoção e fez com que os sonhos representados no palco se tornassem ainda mais vivos e luminosos.

A Mundus Culturalis, companheira constante do Instituto, esteve novamente presente na construção gráfica e redacional que acompanha suas ações. Comunicar uma história tão sensível exige mais do que palavras e imagens: exige compreensão, respeito e cuidado. A Mundus tem ajudado o Instituto a dar forma pública ao que ele sente, realiza e deseja compartilhar.

O Centro de Artes La Bayadère, por sua vez, não é apenas uma instituição parceira do Tributo. Ele faz parte da própria história de Marina. Foi sua segunda casa, o lugar onde seu amor pela dança encontrou disciplina, linguagem, movimento e liberdade. Ali nasceram sonhos, amizades e aprendizados; ali se formou uma parte essencial da pequena artista que encantava todos os que tiveram o privilégio de acompanhá-la.

Foi também no La Bayadère que o espetáculo “Sonhos de uma Menina” ganhou forma. Sua criação, produção e coreografias foram conduzidas pelos professores Marcela Mendes e Samuel Gechelen, que receberam a responsabilidade de transformar em dança os sonhos de Marina, os lugares que ela desejava conhecer e as diferentes raízes culturais que faziam parte de sua história. Coube a eles construir o enredo que surpreendeu até mesmo a família, escolhendo movimentos, músicas e cenas capazes de contar, no palco, uma história tão íntima e tão especial.

Os figurinos também foram parte fundamental dessa construção. Desenhados pela professora Marcela Mendes, eles foram concebidos para acompanhar cada passagem do enredo e representar as culturas, os lugares e os sonhos que surgiam no palco. À costureira e figurinista Érica Fadel, o nosso agradecimento por ter transformado esses desenhos em realidade. Por meio de seu trabalho cuidadoso, os figurinos imaginados para cada coreografia ganharam tecidos, cores, movimento e vida, contribuindo de maneira decisiva para a beleza e a identidade do espetáculo.

Por isso, ao participar da realização do Tributo, o La Bayadère não ocupa simplesmente a posição de parceiro institucional. Está presente como guardião de uma parte preciosa da trajetória de Marina e como responsável tanto pela criação artística dessa homenagem quanto pelo acolhimento, todos os anos, de novas crianças que encontram na dança a mesma possibilidade de sonhar que ela um dia encontrou.

E, no coração de toda essa história, está o Instituto Marina Karam Primak — IMKP, presidido pela mãe de Marina. O Instituto nasceu da decisão de não permitir que a partida da filha encerrasse tudo o que ela despertou no mundo. Transformar saudade em trabalho e amor em oportunidade foi a maneira encontrada para que Marina continuasse presente e para que seus sonhos também pudessem alcançar outras vidas.

Atualmente, o Instituto atende 30 crianças, selecionadas por meio de prova em processo realizado anualmente, a partir de edital e em parceria com o Centro de Artes La Bayadère. Foram essas crianças que também brilharam no palco do último Tributo à Marina. Em cada uma delas havia algo que não se poderia explicar somente pela técnica: havia a alegria de ocupar aquele palco e a certeza de que uma oportunidade recebida pode mudar o rumo de uma vida.

Há também jovens que cresceram, ultrapassaram fronteiras e hoje levam consigo uma parte dessa história. Rafael Junior, graças ao próprio talento e com o apoio do Instituto, foi aprovado e atualmente integra, na Polônia, o Zespół Pieśni i Tańca “Śląsk”, o Conjunto Nacional Polonês de Canção e Dança, um dos mais importantes grupos folclóricos profissionais do mundo, cujo processo de ingresso exige elevado preparo artístico e técnico.

Enzo Gabriel Gonçalves dos Santos e Clara Helena Martins Frohlich, por sua vez, participarão do Rio Ballet Summer 2027, programa intensivo de treinamento que reunirá bailarinos de todo o país, entre os dias 3 e 10 de janeiro de 2027, no Rio de Janeiro, para aulas de balé clássico, dança contemporânea e preparação física com profissionais reconhecidos.

É assim que Marina continua brilhando. Brilha nas crianças que hoje sobem ao palco pela primeira vez, nos jovens que amadurecem e conquistam novos espaços e naqueles que cresceram e chegaram a dançar em outro país. Brilha em cada oportunidade que talvez não existisse sem o Instituto, em cada sonho que recebe incentivo e em cada aluno que descobre que seu talento pode levá-lo muito além do lugar onde começou.

Foi isso que o público viu no dia 15 de agosto. Não apenas uma apresentação dedicada a uma menina que partiu cedo demais, mas tudo o que essa menina continua realizando no mundo.
Vimos diferentes artistas dividindo o mesmo palco, instituições somando esforços, tradições culturais encontrando novas formas de expressão, profissionais oferecendo o seu melhor e famílias reunidas pela mesma emoção. Vimos as crianças do Instituto dançarem com uma luz que era delas, mas que também trazia consigo a história de quem lhes abriu esse caminho.

E vimos Marina.

Nós a vimos na tela, adulta por alguns instantes. Mas ela esteve presente durante toda a noite: nas coreografias, nos figurinos, nos bastidores, nos abraços, nos olhos marejados e em cada aplauso. Esteve principalmente naquilo que continua acontecendo porque ela existiu.

Ao final daquela noite, a sensação não era simplesmente a de termos recordado Marina. Era a de havermos compreendido, mais uma vez, que sua história continua sendo escrita: em cada criança acolhida pelo Instituto, em cada jovem que encontra apoio para desenvolver seu talento, em cada parceiro que decide caminhar ao nosso lado e em cada artista que sobe ao palco em seu nome.

A todos os que tornaram essa noite possível, o nosso mais profundo agradecimento. Cada apoio, cada gesto e cada hora de trabalho ajudaram a transformar os sonhos de uma menina em uma apresentação inesquecível e, muito além dela, em oportunidades reais para tantas outras vidas.
O tempo de Marina entre nós foi muito menor do que o amor desejava. Ainda assim, foi suficiente para deixar uma luz que não se apagou com sua partida.

Essa luz está em cada criança acolhida, em cada sonho que recebe uma oportunidade e em cada novo caminho que se abre por meio do Instituto.

Marina tornou o mundo mais bonito, mais generoso e mais feliz.

E continua brilhando.

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