Sidney Gusman estreia no quadrinho autoral com narrativa pessoal e carregada de rara sensibilidade
Conhecido pelo trabalho na edição de HQs e no jornalismo do setor (um dos melhores profissionais do país, é importante frisar), Sidney Gusman se revela também um roteirista de mão cheia. É só você ler “Domingos”, sua estreia no quadrinho autoral, para tomar conhecimento de uma narrativa envolvente, sensível e bonita. Redentora.
Publicada ao final de 2025 pela editora Pipoca & Nanquim na coleção Originais PN, essa HQ nacional tem o roteiro de Sidão, como é mais conhecido, e desenhos do premiado Jefferson Costa (da trilogia “Jeremias”, feita a quatro mãos com Rafael Calça para o selo Graphic MSP).
No prefácio, o roteirista explica que “Domingos” era uma ideia antiga que ficou hibernando até ganhar corpo e forma nas páginas dos quadrinhos. Na verdade, Sidão informa que há muito tempo vinha com o plano de escrever suas próprias histórias. Conhecimento sempre teve, pois trabalhou durante 20 anos na MSP Estúdios (da Turma da Mônica), notabilizado-se pela coordenação criativa das Graphic MSP e tantos projetos, e também no mercado jornalístico desde 1990. No entanto, faltava tempo para Gusman se dedicar aos roteiros de sua autoria.
Até que veio o start em 2019, a caminho do trabalho, em São Paulo (SP). “Não sei por que me veio à mente o fato de meu pai, que se chamava Domingos, ter nascido e morrido num domingo. E, de repente, minha cabeça explodiu! As lembranças começaram a me inundar num ritmo tão frenético, que imediatamente peguei o celular para gravar um áudio e não perder nada”, diz no prefácio da edição da Pipoca & Nanquim.
Ele conta nesse texto que seu nome completo é Sidney Domingos Gusman, com essa homenagem ao pai. “Daí surgiu a ideia de fazer um álbum que contasse (em quadrinhos, claro) as histórias de alguns domingos inesquecíveis que vivemos. Fossem eles felizes ou tristes”.
Assim, “Domingos” tem uma estrutura episódica, com capítulos montados a partir de inúmeros domingos, com as devidas datas (dia, mês e ano). Claro, tudo ao sabor das memórias de Sidão junto de sua família, com destaque para a relação com Seu Domingos, um descendente de espanhóis que criou os filhos com a esposa na Mooca, uma região tradicionalíssima de São Paulo. Aliás, berço do Juventus, clube de futebol que se mantém ativo até hoje. Mas o autor se tornou corinthiano (com “h” mesmo, conforme o gibi) assim como seu pai.

HISTÓRIA COM HISTÓRIAS
Ao longo das páginas marcadas pela bela arte de Costa e dos domingos, o leitor se delicia com histórias envolvendo futebol, escola, trabalho, diversão, descobertas e crescimento. Naqueles domingos clássicos que tantas famílias conhecem. A HQ segue uma ordem cronológica, desde o nascimento de Domingos Gusman Gimenez em uma família espanhola, numa casinha na Mooca, em um domingo de 1937, seu casamento, a vinda ao mundo do Sidney (quase num domingo) em 1966, e o crescimento dos filhos. Com destaque para o autor, que se vale da narrativa em 1ª pessoa (nos recordatórios) para formar esse relato memorialístico redentor.
A narrativa, que havia começado em um domingo de 1937, termina em 2010. Além de um capítulo extra que se passa em 2019. Inclusive, é um episódio que não constava na ideia original do livro, mas que o narrador se viu “obrigado” a encaixar, como ele mesmo conta.
De maneira geral, “Domingos” é uma homenagem ao pai do autor e também à história da família Gusman. Ambos formaram aquele que viria a ser o Sidão, uma figura que se mistura com a produção de quadrinhos das últimas décadas no Brasil, principalmente dos anos de 1990 para cá. De leitor de gibis, ele passou a jornalista e editor. Mas antes disso, ele era o “Si” para os íntimos, o Sidney Domingos Gusman, da Mooca, que cresceu numa família com histórias e personalidade. Com afeto e diversão. Com uma figura extraordinária como o Seu Domingos. Sempre aos domingos.
“E como foi maravilhoso escrever essa obra! Foi uma catarse enorme. Um acerto de contas com a minha história”, escreve Sidão no prefácio do livro.

EDIÇÃO
A edição da Pipoca & Nanquim (uma das melhores casas do ramo) tem formato grande, 204 páginas coloridas e impressas em papel pólen de alta gramatura, capa dura com verniz localizado, lombada redonda e posfácio de Filipe Melo, autor de “Balada para Sophie”.
“Domingos” pode ser adquirido na Amazon, em versão impressa (R$ 91,98) ou e-book (R$ 59,90).