O Gabinete do Dr. Lecter: 30 anos de ‘O silêncio dos inocentes’

Em maio de 2021, o clássico “O silêncio dos inocentes” completa 30 anos de seu lançamento nos cinemas brasileiros. Nesta edição, a série especial do CORREIO recupera informações sobre o filme que tem Anthony Hopkins tocando o terror no papel do psiquiatra canibal Hannibal Lecter

Incrível, fantástico, extraordinário! Em 1991, o mundo ficou impressionado com Hannibal Lecter, o psicopata comedor de carne humana. E pensar que ele havia sido um brilhante psiquiatra, dotado de excepcional inteligência.

Ainda bem que esse tal Dr. Lecter existiu apenas na ficção. Mais precisamente no universo ficcional de “O silêncio dos inocentes”, filme que em maio de 2021 completa 30 anos de seu lançamento nas salas de cinema brasileiras.

Dirigido por Jonathan Demme, é um dos poucos longas-metragens norte-americanos a conquistar o Oscar nas principais categorias (filme, direção, ator, atriz e roteiro).

Jodie Foster está extraordinária no papel da jovem agente do FBI Clarice Starling. Mas é o fantástico Anthony Hopkins que rouba a cena na pele de Hannibal Lecter. Seu olhar opaco, sua presença hipnótica, suas manipulações psicológicas, sua frieza… tudo isso é ao mesmo tempo sedutor e temeroso.

São apenas 16 minutos em cena. Porém, suficientes para conquistar um lugar no imaginário popular e na história cultural. Na lista dos 50 maiores vilões do cinema de todos os tempos, elaborada pelo Instituto de Cinema Americano (AFI, na sigla em inglês), Dr. Lecter ficou simplesmente em primeiro lugar.

Curioso é que “Hanibal, o Canibal” não é o protagonista de “O silêncio dos inocentes”. Detido numa prisão, ele é procurado por Clarice Starling para descobrir informações sobre outro assassino, este livre e matando em série. Ou seja, a agente precisa penetrar no universo de Lecter, restrito a uma cela, para entender a mente de seu alvo. Estabelece-se uma espécie de jogo mental.

Essa produção hollywoodiana se baseou no best-seller homônimo de Thomas Harris.

Jodie Foster vive de maneira brilhante a agente Clarice Starling (Foto: Reprodução)

REPERCUSSÃO
Em 19 de maio de 1991, o jornal O Estado de S.Paulo publicou um material em português do The New York Times sobre o filme. Assinada por Ivor Davis, a reportagem é feita a partir de uma entrevista com o britânico Anthony Hopkins, que tinha 53 anos de idade à época, e impressões sobre o filme de Jonathan Demme.

Davis classifica a atuação de Hopkins como “uma das performances mais malévolas jamais realizadas no cinema”. Em seguida, a matéria diz que “Lecter é a mais perfeita encarnação do Diabo”, citando que o personagem havia comido a língua de uma enfermeira. Mas o repórter deixa claro que o Dr. Lecter não precisa de armas ou artefatos. Basta sua mente.

Matéria publicada pelo Estadão em 1991 (Foto: Reprodução)

“Lecter possui a capacidade dedutiva de Sherlock Holmes combinada com a falta de escrúpulos de Adolf Eichmann e seguramente passará a frequentar os pesadelos dos espectadores que se atreverem a encará-lo por duas horas no escurinho da sala de projeção”.

Naquele momento, “O silêncio dos inocentes” já estava em cartaz na cidade de São Paulo.

Na entrevista de 1991, Hopkins explica que teve de vasculhar recordações desagradáveis em sua memória afetiva para uma melhor interpretação. Sem contar também sua experiência, pois o ator há havia feito outros vilões no cinema àquela altura (Adolf Hitler, um ventríloquo psicótico etc.).

O sucesso do longa foi tão grande em 1991 que o Estadão publicou pelo menos três reportagens em torno do tema nesse ano, com destaque também para a edição brasileira do livro que deu origem ao filme.

Capa de DVD do filme “O silêncio dos inocentes”. Esta imagem também se tornou icônica (Foto: Reprodução)

ESTREIA
O Globo publicou reportagem em sua edição impressa justamente no dia em que “O silêncio dos inocentes” estreou no Rio de Janeiro: 17 de maio de 1991. Diretamente de Los Angeles, o repórter José Emílio Rondeau reuniu entrevistas com Jodie Foster e Anthony Hopkins.

A atriz destacou que a grande qualidade de sua personagem era o fato de ser uma heroína que “não precisa virar uma versão feminina de Arnold Schwarzenegger [astro de filmes de ação dos anos 80] e nem correr de calcinhas nas cenas”. Nesse sentido, Foster disse que Clarice tem um arsenal de combate ao vilão formado por emoção, intuição, fragilidade, vulnerabilidade e “até mesmo partes negativas de seu passado. Acho que nunca houve uma heroína assim”.

Por sua vez, Hopkins contou que a voz de Lecter deveria soar como a combinação entre “Katharine Hepburn e Truman Capote”. Aliás, todos aprovaram esse processo durante o primeiro encontro com Demme e Foster. “Nos primeiros testes de maquiagem, o ator elaborou mais ainda seu Lecter, pedindo que tingissem seu cabelo da castanho escuro e o penteassem com bastante gel, grudado no couro cabeludo”.

Além da reportagem, o Segundo Caderno desse dia apresentava uma resenha escrita por Luciano Trigo. O crítico define o longa-metragem como “totalmente selvagem, que não poupa o espectador de imagens de corpos mutilados e cenas de canibalismo explícito e implícito”. O texto ainda aponta que os melhores momentos são aqueles da tensa relação entre Lecter e Clarice – “que acabam se convertendo num bem-sucedido processo psicanalítico”.

Trigo aproveitou para dizer que as cenas de suspense e ação são excelentes, temperadas por um humor negro que lembra David Lynch.

*********Texto/pesquisa: Cris Nascimento, especial para CORREIO