Conhecido pela escrita neobarroca, principalmente em obras como “Os Sinos da Agonia” (1974), o escritor mineiro Autran Dourado completaria 100 anos de vida neste domingo (18), caso ainda fosse vivo. Ele faleceu em 30 de setembro de 2012, aos 86 anos, vítima de uma hemorragia estomacal. Nasceu em 18 de janeiro de 1926, na cidade de Patos de Minas (MG).
O romancista, contista, jornalista e jurista Waldomiro Freitas Autran Dourado veio de uma geração privilegiada de escritores e intelectuais mineiros do quilate de Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Hélio Pellegrino, Paulo Mendes Campos e Francisco Iglésias. Infelizmente, todos já se foram. Aliás, quando morreu em 2012, Autran era o último deles que, infelizmente, ficou esquecido em seus derradeiros anos de vida.
Na sua vasta e marcante obra literária, com mais de 20 livros, destaque para a fase de produção nos anos de 1960: os romances “A Barca dos Homens” (1961) e “Ópera dos Mortos” (1967), este incluído na coleção “Obras Representativas da Literatura Universal da UNESCO”, e a novela “Uma Vida em Segredo” (1964). Era uma produção reconhecida e premiada internacionalmente, sendo adotada em escolas e universidades.
Vale destacar “O Risco do Bordado” (1973), um “romance desmontável”, composto por episódios quase independentes.
Em 1981, “As Imaginações Pecaminosas”, livro de contos premiado com um Jabuti, angaria um prêmio alemão: o Goethe de Literatura. Nos anos de 1980 e 1990, continua a publicar contos e romances, chegando a receber, em 2000, o Prêmio Camões, o mais importante em língua portuguesa.
Segundo a “Enciclopédia” do Itaú Cultural, o autor passou a infância e adolescência em Monte Santo e São Sebastião do Paraíso. Entre 1940 e 1954, viveu em Belo Horizonte, onde concluiu o curso clássico e iniciou a faculdade de direito. Nesse período, com 17 anos, apresentou para o escritor Godofredo Rangel (1884-1951) seu primeiro livro de contos. O escritor incentivou a continuar escrevendo, atividade comum no círculo de jovens intelectuais do qual o rapaz participa durante o período universitário. Com esse grupo, Autran criou a revista Edifício. Mais tarde, em 1947, apresentou sua obra de estreia: a novela “Teia”, escrita quando trabalhou como taquígrafo da Assembleia Legislativa e colaborou com o jornal Estado de Minas.
Depois de formado, Autran conquistou dois prêmios literários: o primeiro, com “Sombra e Exílio” (1950), e o segundo, com “Tempo de Amar” (1952), este agraciado com Prêmio Cidade de Belo Horizonte. Em 1954, mudou-se para o Rio de Janeiro, para trabalhar na campanha de Juscelino Kubitschek à presidência e, depois, como seu assessor de imprensa. Nesse período, publicou o primeiro volume de contos.
“A ficção de Autran Dourado é introspectiva, trilhada por meio da técnica do ‘monólogo interior’ ou, nas palavras do crítico brasileiro Alfredo Bosi (1936) a ‘escola do olhar’”, conforme o Itaú Cultural.
Já o crítico literário José Castello disse ao jornal O Globo, quando Autran morreu, que o escritor mineiro havia sido autor de obra coerente, tendo seguido por décadas a fio seu caminho. “Um caminho muito próprio na literatura, não se deixou influenciar por modismos ou tendências, era muito convicto de seu projeto literário. É um desses escritores que parecia ter passado a vida desenvolvendo o mesmo romance, desenrolando-o”, afirmou Castello.

PUBLICAÇÕES
No mercado de livros usados, o leitor e a leitora podem encontrar a obra de Autran Dourado em edições publicadas por editoras variadas. Basta dar uma busca no Estante Virtual, por exemplo. Nos anos 2000, a Rocco republicou quase a totalidade da produção autraniana.
Mais recentemente, a Harper Collins Brasil lançou, a partir de 2022, “Os sinos da agonia”, “Ópera dos mortos” e “A barca dos homens”.
No primeiro, a história se passa no fim do século XVIII, em Vila Rica, Minas Gerais. Uma jovem arruinada financeiramente casa-se com um abastado fazendeiro na esperança de salvar o futuro da família. De início satisfeita com o arranjo, a jovem logo percebe que não será nos braços do rico e importante senhor que encontrará a felicidade, e sua busca se transforma numa verdadeira tragédia.
“Os sinos da agonia” se vale de vários narradores (vozes), somado ao uso de técnicas narrativas como fluxo de consciência e flashbacks. É a recriação do mito grego de Fedra e Hipólito, em que a protagonista se apaixona pelo próprio enteado.
Já em “Ópera dos mortos”, numa pequena cidade do interior mineiro, Rosalina vive enclausurada num antigo sobrado, construção iniciada por seu avô, o truculento coronel Lucas Procópio, e continuada por seu pai, João Capistrano. Afastada de todos, Rosalina conta apenas com a companhia de Quiquina, uma empregada muda, e de relógios parados. Mas a chegada de José Feliciano, ou Juca Passarinho, promete transformar para sempre a rotina cativa da moça, única e solitária herdeira da família Honório Cota.
É um livro tenso e denso, em constante dualidade e em constante contraste. Tem prefácio de Itamar Vieira Júnior.
E em “A barca dos homens”, vencedor do prêmio Fernando Chinaglia, o suposto roubo de uma arma de fogo mexe com todas as pessoas da pequena e pacata ilha de Boa Vista. Fortunato, uma pessoa com deficiência intelectual, rapidamente se torna suspeito e alvo de uma grande comoção e comitiva para encontrá-lo, vivo ou morto.
Cerceados pelo mar e movidos pelo medo em um momento de perseguição e tensão, os moradores da ilha serão levados aos limites de seus próprios conflitos, nos quais vontades reprimidas aparecerão como uma forte ressaca do mar.
O prefácio desse livro é do escritor paranaense Oscar Fussato Nakasato, autor do premiado “Nihonjin”.