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OPINIÃO: Safra recorde, margem comprimida: os dilemas do produtor brasileiro

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A colheita avança em ritmo acelerado, os números impressionam e o Brasil reafirma sua liderança global em soja e milho. Mas, na atual conjuntura, o desafio central dos produtores não é colher mais – é preservar rentabilidade em um cenário de preços pressionados, custos elevados, volatilidade cambial e incertezas geopolíticas. A safra 2025/2026, que se consolida como uma das maiores da história recente, expõe uma contradição: nunca se produziu tanto, e ainda assim a margem no campo se estreita.

Ao longo deste mês de fevereiro, a colheita da soja alcançava cerca de 17,4% da área plantada, ritmo superior ao do ano anterior. A primeira safra de milho avançava para 11,4%. As estimativas apontam produção de soja entre 172 e 178 milhões de toneladas, com embarques projetados acima de 110 milhões, mantendo o Brasil como maior exportador mundial. No milho, a expectativa gira em torno de 138 milhões de toneladas, consolidando o país entre os líderes globais.

Os dados do relatório WASDE, do United States Department of Agriculture, projetam produção brasileira de soja próxima de 175 milhões de toneladas e reforçam o peso do país no comércio internacional. O Brasil responde por mais da metade das exportações globais da oleaginosa e disputa, no milho, mercados estratégicos na Ásia e no Oriente Médio.

A fotografia, porém, esconde tensões.

Preços internacionais em queda, estoques globais confortáveis e maior competição entre exportadores comprimem cotações. Nos portos, os prêmios oscilam conforme o fluxo de oferta sul-americana e a demanda chinesa, reduzindo previsibilidade. O câmbio, tradicional amortecedor das crises agrícolas, tem oferecido proteção parcial, mas insuficiente diante do avanço dos custos de produção – fertilizantes, defensivos, máquinas e crédito seguem pressionados.

Há ainda o vetor externo. A perspectiva de aumento da área de milho nos Estados Unidos, impulsionada pela demanda de etanol, tende a reforçar a oferta global do cereal, pressionando ainda mais os preços. O movimento é acompanhado de perto por analistas e cooperativas brasileiras, que veem no crescimento da produção norte-americana um fator adicional de competição no segundo semestre.

O paradoxo da safra 2025/2026 é, portanto, claro. O Brasil consolida protagonismo global, influencia preços internacionais e amplia sua presença estratégica. Contudo, no nível da fazenda, o produtor enfrenta um cenário de compressão de margens que exige gestão sofisticada, diversificação e prudência financeira.

O Paraguai, com expectativa de exportações elevadas, pode inclusive demandar milho brasileiro em operações pontuais, dependendo da logística e da formação de preços. Trata-se de uma dinâmica paradoxal: vizinhos que competem nos mercados globais, mas se complementam regionalmente conforme a arbitragem de fretes e câmbio.

Internamente, as perdas já registradas no Rio Grande do Sul, afetado por extremos climáticos sucessivos, lembram que o risco permanece estrutural. O produtor gaúcho, que vinha de ciclos marcados por estiagens e enchentes, enfrenta recuperação lenta e endividamento crescente. O seguro rural e os mecanismos de apoio seguem aquém da dimensão do problema.

O ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues tem reiterado que o Brasil vive uma transição estrutural no agronegócio: sai de uma fase de expansão horizontal para outra, mais dependente de eficiência, gestão de risco e agregação de valor. Em análises recentes, ele sustenta que a competitividade brasileira continuará elevada, mas alerta para a necessidade de política agrícola estável, crédito previsível e investimentos consistentes em infraestrutura e armazenagem.

Esse ponto é crucial. Safras volumosas expõem gargalos logísticos crônicos. Corredores para Santos e Paranaguá operam sob pressão, e o custo do frete interno corrói parte relevante da renda no campo. Sem avanços mais rápidos em ferrovias e armazenagem, o ganho de produtividade tende a ser parcialmente capturado pela ineficiência estrutural.

Preços internacionais em queda, estoques globais confortáveis e maior competição entre exportadores comprimem cotações. Nos portos, os prêmios oscilam conforme o fluxo de oferta sul-americana e a demanda chinesa, reduzindo previsibilidade. O câmbio, tradicional amortecedor das crises agrícolas, tem oferecido proteção parcial, mas insuficiente diante do avanço dos custos de produção – fertilizantes, defensivos, máquinas e crédito seguem pressionados.

Ao mesmo tempo, a abundância de milho ajuda a mitigar pressões inflacionárias sobre proteínas animais. Mas o efeito positivo sobre o PIB convive com uma realidade microeconômica distinta: margens apertadas, necessidade de alongamento de dívidas e cautela na compra de insumos para o próximo ciclo.

Há, ainda, o componente ambiental e diplomático. A liderança brasileira amplia a cobrança internacional por rastreabilidade e sustentabilidade. O país se apresenta como potência agroambiental, sustentando que o crescimento ocorre majoritariamente sobre áreas consolidadas. A narrativa, porém, exige comprovação contínua – sob pena de barreiras comerciais não tarifárias.

O paradoxo da safra 2025/2026 é, portanto, claro. O Brasil consolida protagonismo global, influencia preços internacionais e amplia sua presença estratégica. Contudo, no nível da fazenda, o produtor enfrenta um cenário de compressão de margens que exige gestão sofisticada, diversificação e prudência financeira.

A grande colheita reafirma a força do agro brasileiro. Mas também revela que, em um mercado globalizado e altamente competitivo, volume não é sinônimo automático de prosperidade. O desafio agora é transformar liderança produtiva em rentabilidade sustentável – no campo e nas contas públicas.

*****Texto de JOSIEL LIMA, que é agrônomo, pai de família, produtor rural, empresário, presidente do MDB em Guarapuava, foi candidato a deputado federal e secretário municipal de Agricultura

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