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Delegado Espinosa, famoso personagem da literatura policial, volta em livro escrito por Livia Garcia-Roza

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Nos anos de 1990, o escritor Luiz Alfredo Garcia-Roza (1936-2020) surgiu no cenário literário com o elogiado e premiado “O silêncio da chuva” (1996). A partir dali, ele renovou o romance policial com tramas originais que escapavam de clichês e rompiam com alguns cânones do gênero. Seu personagem Espinosa entrou para a galeria de figuras marcantes da moderna literatura brasileira.

Ao longo de sua carreira, que começou tardiamente na ficção após destacada carreira na psicanálise, Garcia-Roza conquistou os leitores e as leitoras com obras como “Achados e perdidos” (1998), “Vento sudoeste” (1999) e “Na multidão” (2007)… até finalizar em “A última mulher” (2019), pouco antes de sua morte aos 83 anos em 2020. No total, uma dúzia de romances entre 1996 e 2019; além das obras de não-ficção na área acadêmica, anos de 1980/90.

A sociedade perdeu um autor desse gabarito, mas que deixou um legado para a história literária. Legado este que recebeu homenagem em 2025 de sua viúva, a também escritora e psicanalista Livia Garcia-Roza. A autora lançou, pela editora Faria e Silva, o volume “Espinosa”, Trata-se de homenagem à literatura de Luiz Alfredo Garcia-Roza.

Não à toa, um dos personagens no livro do ano passado é o famoso delegado de Copacabana, imortalizado nas obras de Luiz Alfredo. Desta vez, Espinosa conhece Livia (em versão ficcional) e se apaixona por ela. Ao mesmo tempo, o personagem está às voltas com o bandido Dodô e seus comparsas, delegacia, mulheres, livros (mais sebos), comida congelada (em especial, lasanha) e a vida noturna do Rio de Janeiro.

Em capítulos curtos (43, no total), a narrativa se desenha em períodos rápidos e certeiros, a partir de um narrador em 3ª pessoa que se desloca entre Livia e Espinosa. A linguagem é deliciosa e proporciona ao leitor e à leitora o retorno ao universo do delegado mais famoso da literatura contemporânea. No entanto, é uma versão diferente do personagem criado pelo saudoso escritor. Um dos filtros estabelecidos é a metalinguagem, utilizada na narrativa com pitadas de insólito e leveza.

Por exemplo, os vendedores de um dos sebos frequentados por Espinosa sabem que ele ficou famoso nos livros do psicanalista aposentado. É tietado por conta disso, misturando ficção e “real”, digamos assim. Inclusive, em outra passagem do romance da Faria e Silva o protagonista diz a Livia que o criador (Luiz Alfredo) não gostava de saber que a criação era mais famosa do que ele. É uma brincadeira com algo que ocorreu com Arthur Conan Doyle (1859-1930) e seu famoso Sherlock Holmes.

Mesmo assim, a autora capta o espírito da obra do homenageado, explorando um lado que sempre cativou o público dessa literatura: existe o mistério a ser solucionado, mas nem sempre a solução aprece de maneira simples e lógica. Ou nem existe de fato. O que importa mesmo é a forma como as personagens se relacionam com o enigma posto no horizonte, especialmente o investigador.

Quase na metade de “Espinosa”, o personagem que dá título ao livro se recorda que Luiz Alfredo dizia que “…o romance policial era um enigma a ser decifrado e não um problema a ser resolvido. O enigma é aquilo que não se entende, o que está trancado, o puro dentro. O puro outro. Espinosa pensava enquanto se dirigia para casa” (págs. 48 e 49).

A este repórter, certa vez em entrevista de anos atrás, Luiz Alfredo disse que o romance policial não se resumia à equação clássica para restabelecer a ordem (“crime-investigação-solução”), tal como na linhagem de romances de enigmas (casos de Conan Doyle e Agatha Christie). Seu interesse como autor superava isso.

Feliz de quem conheceu a literatura desse raro escritor e agora pode se deleitar com a obra de Livia Garcia-Roza, uma autora de mão cheia que estreou na literatura em 1995.

Foto: Reprodução/Faria e Silva

AUTORA
Livia Garcia-Roza nasceu no Rio de Janeiro e passou a juventude em Niterói. Com formação em psicanálise e pós-graduação em psicologia clínica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, exerceu durante 30 anos a atividade, até optar por dedicar-se exclusivamente ao ofício literário. Casada por 44 anos com o também escritor e psicanalista Luiz Alfredo Garcia-Roza, falecido em 2020.

Livia estreou na literatura em 1995, com o romance “Quarto de menina”. Desde então, lançou vários outros romances, livros de contos e infantojuvenis. A prosa da autora imerge nas emoções humanas, com extrema delicadeza e profundidade, e costuma girar em torno das relações familiares. “O que mais me apaixona na ficção é poder olhar em outra direção, é ser uma alternativa, um respiro, uma ruptura no cotidiano”, diz Livia Garcia-Roza, no orelha de “Espinosa”.

Pela Faria e Silva (do Grupo Editorial Alta Books), lançou “Icarahy”, e pela Tordesilhas, “Divã em série”.

SERVIÇO
A edição de “Espinosa” (ed. Faria e Silva, 2025) tem 112 páginas, dimensões de 14 x 0.5 x 21 cm e pode ser adquirida no e-commerce – R$ 45,90, em média na versão impressa; R$32,10, e-book. A orelha do livro tem assinatura de Tony Bellotto, escritor de livros policiais e guitarrista dos Titãs.

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