No frigir dos cérebros

Tampe os ouvidos! Pois um barulho horripilante pode fritar parte de seu cérebro e ativar os instintos mais canibais e

Tampe os ouvidos! Pois um barulho horripilante pode fritar parte de seu cérebro e ativar os instintos mais canibais e violentos do ser humano. Poucos escapam e muitos se transformam em uma coisa horrorosa e faminta. É o uivo de uma criatura mitológica em ação sobre a Terra!

Esse é o mote do projeto literário ‘O uivo da górgona’, escrito pelo premiado roteirista, professor e pesquisador Gian Danton (de ‘A insólita família Titã’ e ‘Como escrever quadrinhos’). Ele conta com o trabalho do desenhista guarapuavano João Ovitzke em ilustrações de deixar os cabelos em pé.

Em campanha no site Catarse, o projeto arrecada recursos via financiamento coletivo (a tal ‘vaquinha virtual’) para tirar as ideias do projeto e transformá-las no romance ilustrado ‘O uivo da górgona’, uma história de terror sobre zumbis. Aliás, Gian é uma das referências do gênero no quadrinho nacional, sendo responsável nos anos de 1990 por sua renovação ao lado de Joe Bennett (desenhista brasileiro com carreira em editoras como a Marvel e a DC Comics).

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A dupla Gian/Joe produziu histórias para as clássicas revistas ‘Calafrio’ e ‘A hora do crepúsculo’. No ano 2000, Gian escreveu a graphic novel ‘Manticore’, que transformava o fenômeno chupa-cabra numa trama de horror e ficção-científica e faturou diversos prêmios. Nos últimos anos, além de quadrinhos, tem se dedicado à literatura, participando de diversas antologias de fantasia e terror. Seu primeiro romance, ‘Galeão’, é uma história de fantasia sobre um navio à deriva no Atlântico.

E agora, ‘O uivo da górgona’, que se passa durante um ‘apocalipse zumbi’. Graças a um som desconhecido (chamado de ‘uivo da górgona’ por um dos personagens), pessoas têm as células do neocórtex destruídas e passam a ser governadas pelo complexo reptiliano, num comportamento violento e puramente instintivo.

A partir desse caos, o leitor acompanha um grupo eclético de sobreviventes que tenta se virar como pode em meio aos mortos-vivos.

Em entrevista ao CORREIO, Gian conta que o livro começou a ser gestado muito tempo atrás. O nome, por exemplo, vem de um livro que li em 1983, chamado ‘Os escravos da górgona’, um livrinho de bolso, mal escrito, mas com uma premissa interessante: uma luz que transforma as pessoas, algumas em monstros de pedra, outras em seres irracionais. Também sempre me incomodou nas histórias de zumbis o fato dos zumbis estarem mortos. Como assim? Se estão mortos, por que sentem fome? Então creio que ‘O uivo da górgona’ surgiu da junção desses dois conceitos acrescidos de meus estudos sobre os comportamentos coletivos e como as partes do cérebro governam esses comportamentos.

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Influenciado por sua atividade como roteirista, Gian tem uma narrativa literária com características típicas dos quadrinhos: texto curto, linguagem direta, ação frenética e suspense a cada final de capítulo. Para dar forma visual ao livro, o autor convidou Ovitzke, dono de um traço que combinou perfeitamente com a história de terror. Outro desenhista que estará no projeto será Antonio Eder, antigo parceiro do roteirista em várias histórias em quadrinhos.
A seguir, confira a entrevista completa com Gian.

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Li o material com as primeiras páginas. O que me chamou a atenção é que a narrativa começou a mil por hora, com os personagens já em situação de ‘apocalipse zumbi’.
Eu ia escrevendo e publicando em um grupo do Facebook dedicado a histórias de terror. Era uma forma de ir recebendo um feedback dos leitores, de saber o que estava funcionando e o que não estava. E, para conseguir a atenção nesse meio, eu precisava captar a atenção do leitor desde o primeiro capítulo. O curioso é que surgiram dezenas de fãs da história, verdadeiros ‘gorgomaníacos’, como disse uma dessas fãs, que torciam pelos personagens e ficavam discutindo os rumos da história. Isso é interessante também porque tornou o ato de escrever menos solitário.

No gênero do terror, ‘O uivo da górgona’ envereda pela temática zumbi, hoje muito em voga por conta do sucesso de séries como ‘The Walking Dead’. É difícil renovar esse subgênero?
Sinceramente, renovar o gênero nunca foi meu objetivo. Eu queria apenas contar uma história que achava interessante, com temas que acho interessantes, como por exemplo, como as pessoas podem se transformar em seres irracionais e sanguinários. É o caso das multidões, dos linchamentos. Também trabalhei um tema que me é muito caro: os psicopatas, pessoas que matam sem remorso, friamente, mas parecem comuns.

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Gian Danton

O grupo de sobreviventes tem um professor (racionalidade), um jovem universitário (inconsequência), uma menina indefesa (inocência), uma mulher extravagante (humor), homem negro (instinto). Longe de querer dizer que são estereótipos, mas acredito que cada um deles tem uma função na narrativa.
Lobato dizia que a Emília foi uma personagem que saiu do controle, que decidia o que ia falar. Aconteceu algo parecido aí. A Zu, por exemplo, era para ser uma mulher chata, até mesmo insuportável. Com o tempo foi se tornando simpática, uma figura muito bem delimitada, tanto que conquista os leitores. A Dani começou como uma moça indefesa, depois se tornou uma das personagens mais fortes. O personagem negro foi colocado ali para discutir essa visão que se tem dos negros. É o único que não dou uma biografia e isso foi intencional. Ele sabe fazer ligação direta nos carros, então talvez seja um ladrão (há um momento da história que o acusam disso), mas talvez tenha sido um policial, ou um mecânico. Há uma ótima propaganda da Bennetton em que vemos o braço de um homem negro e um homem branco. Sabemos que um dos dois é o ladrão e o outro é o policial que o prendeu, mas qual dos dois é qual? Deixar isso em aberto faz as pessoas pensarem sobre seus conceitos e preconceitos.

Aliás, os nomes dos personagens têm sua simbologia? Por exemplo, Edgar é uma referência a Edgar Allan Poe?
Ah, sem dúvida nenhuma. Uma referência direta. Não tem como falar de terror sem falar do Poe, então ele foi uma escolha óbvia. Zulmira era o nome de uma tia-avó chata, que conheci quando criança. O curioso é que quando ela vai se tornando mais simpática, eu começo a chamá-la de Zu, dando destaque ao seu lado hippie.

Nos últimos anos, você tem enveredado pela literatura, com obras como ‘Galeão’ e esse projeto ora em financiamento. O gênero do romance sempre fez parte de seu projeto ficcional?
Eu sempre escrevi contos. Desde a década de 1980. Mas só recentemente me aventurei a escrever romances. O bom é que me permite desenvolver melhor alguns temas.

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Possível capa do material

As ilustrações do João dão uma dimensão muito horripilante para o material. Qual é a importância da parte visual para ‘O uivo da górgona’? E o Antonio Eder, como será sua participação?
As ilustrações do João deram uma cara para o projeto. Incrível. Não há quem não elogie. Ele simplesmente fugiu do clichê de representações de zumbis (geralmente grandes multidões atacando) para focar em pessoas transformadas, em suas fisionomias. Olhar um desses desenhos me faz pensar quem era essa pessoa antes da transformação. A participação do Antonio será com ilustrações internas, mas isso só vai acontecer se conseguirmos superar a meta. Se ficarmos apenas na primeira meta, teremos que economizar na edição e uma das formas é tirando as ilustrações internas. Vamos torcer para que não.

SERVIÇO
Livro ‘O uivo da górgona’
Projeto no Catarse
Contribuição mínima: R$ 10
Amostra do texto

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COMO APOIAR O UIVO DA GÓRGONA?
O que é o Catarse? É um site de financiamento coletivo. Você financia um projeto, ajuda ele a acontecer e recebe em troca uma recompensa. No caso do ‘Uivo’, você recebe o livro (a um preço mais baixo do que ele será vendido) e outros livros de Gian Danton, além de brindes, como adesivos. É como se fosse uma vaquinha, em que várias pessoas apoiam para algo sair do papel.

Apoiando eu já recebo o livro? Não, se o projeto atingir a meta, o livro ainda deverá ser editado, diagramado, impresso etc. A previsão de entrega de ‘O uivo da górgona’ é abril de 2016.

Se o projeto não atingir a meta, recebo a recompensa mesmo assim? Não, se o projeto não atingir a meta, ele não acontece, e o dinheiro volta para quem apoiou, integralmente. Não é descontado nada.

Texto: Cristiano Martinez
Fotos: Arquivo/Correio do Cidadão e reproduções de João Ovitzke

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