Guarapuava, 12 de dezembro de 2019
#curta!

Sonoridade e criatividade. Tudo isso pode explicar o surgimento de versões únicas em português de três grandes sucessos internacionais. Em uma viagem no tempo, o CORREIO relembra as canções “Solange”, “O astronauta de mármore” e “Eu pirei”

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Quem iria imaginar que a expressão “so lonely” se tornaria “Solange” no Brasil?! E “beat it”? Virou “pirei”!

Longe de qualquer tipo de infidelidade, essas versões em português são fruto da mente criativa de compositores brasileiros. Em alguns casos, a “cópia” supera o original. Claro que isso depende do seu ponto de vista.

Em contextos diferentes e estilos musicais diversos, as letras de “So Lonely” (gravação do The Police), “Beat It” (Michael Jackson) e “Starman” (David Bowie) foram vertidas para a língua de Camões a fim de serem consumidas no mercado fonográfico brasileiro.

Como toda tradução é recriação, as versões entraram para a histórica musical graças às escolhas lexicais, prosódicas e versantes de seus tradutores.

A seguir, uma seleção feita pelo CORREIO.

CENSURA

Nos anos de 1980, a banda inglesa The Police ficou famosa por uma penca de hits, como é o caso, por exemplo, de “Every Breath You Take”.

Mas um pouco antes, em 1978, o power trio (Sting, Andy Summers e Stu Copeland) brindou seu público com “So Lonely”, faixa do disco “Outlandos d'Amour”. É uma canção romântica, cujo título pode ser traduzido para “tão só”.

No Brasil, Leo Jaime e Leoni, duas pedras fundamentais no rock dos anos 80, fizeram uma versão chamada “Solange”, que não tem nada de romantismo.

Pelo contrário, é uma letra que versa sobre comunicação: “Eu tinha tanto pra dizer/Metade eu tive que esquecer/E quando eu tento escrever/Seu nome vem me interromper”. Mas, nas entrelinhas, trata-se de uma “homenagem” a uma conhecida censora numa fase de redemocratização brasileira.

Em entrevista ao programa “Pânico” da rádio Jovem Pan, Leo explica que Solange Hernandez era chefe do Departamento de Censura da Polícia Federal. “Ela proibia tudo o que era música minha”. Por isso, ele e Leoni resolveram compor “Solange”, que foi gravada no disco “Sessão da Tarde” (1985), de Leo Jaime.

No fim das contas, a letra original em inglês foi totalmente alterada e ganhou conotações sociopolíticas. Mas a dona Solange teve o seu troco!

Curiosamente, Leo gravou outra versão mucho loca do clássico “Johnny B. Goode”, que virou “Johnny Pirou” em uma letra sobre futebol e o “desabrochar da paixão”. Olha um trecho: “E foi gol.../Foi gol... Gol do Mengão, foi gol”.

BOWIE

Há 30 anos, o público brasileiro era embalado por uma canção carregada de metáforas, sonoridade refinada e hermetismo. Tudo isso vindo diretamente do Rio Grande do Sul.

Era o rock em português produzido pela banda gaúcha Nenhum de Nós. Depois do estouro de “Camila, Camila”, eles vieram com “O astronauta de mármore”, em seu segundo álbum de estúdio, “Cardume” (1989).

Produzida por Carlos Stein, Thedy Correa e Sady Homrich, a canção é uma versão para “Starman”, de David Bowie.

Em um texto para o site GaúchaZH, o vocalista Thedy Correa conta que o Nenhum de Nós era muito fã de Bowie e acabou escolhendo “Starman” pela “dramaticidade da melodia”.

Para quem sabe um tiquinho de inglês, deve ter percebido que o título em português não tem nada a ver com o original (o “homem das estrelas”). E não é só isso. Para uns, a recriação da banda gaúcha combinou com o espírito da coisa; para outros, o resultado é uma letra sem pé nem cabeça. Veja só: “São quatro ciclos/No escuro deserto do céu/Quero um machado/Pra quebrar o gelo” e por aí vai.

“Uma letra pra lá de hermética. Um arranjo recheado de referências, a segunda música do lado B, tudo isso traduzia a pouca fé que tínhamos no sucesso da empreitada. Ledo engano. Foi a música mais tocada em todo o país em 1989!”, responde Thedy.

Fãs de David Bowie, os integrantes do Nenhum de Nós fizeram sua versão de "Starman" (Foto: Reprodução)

PIRADO

Tudo é sonoridade no universo da música. Parece uma redundância, mas não é. Só isso explica porque o hit “Beat It” de Michael Jackson se transformou em “Pirei” ou “Eu Pirei” em português.

O cancioneiro brasileiro tem pelo menos opções no ritmo arrocha, forró e rock. Por exemplo, circula na internet uma versão de rock pesado atribuída a Hudson Cadorini (da dupla sertaneja Edson & Hudson) e banda Rollemax.

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