Cotidiano

MST, posseiros e faxinalenses protestam contra reintegração de posse

Segundo os manifestantes, o repúdio é contra o Incra, que não expressou interesse para comprar as terras oferecidas pelas Indústrias João José Zattar
(Foto: Cristiano Martinez/Correio)

Trabalhadores rurais bloquearam a PR 170 (km 395) nesta quarta-feira (6), na região de Guarapuava. Integrantes do Movimento de Trabalhadores Rurais sem Terra (MST), posseiros e faxinalenses protestam contra a reintegração de posse da Fazenda Alecrim, no município do Pinhão. A devolução ocorreu na última sexta-feira (1º).

Segundo os manifestantes, o repúdio é contra o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), que não expressou interesse para comprar as terras oferecidas pelas Indústrias João José Zattar. “Por que não fizeram a compra?”, questiona Nelson dos Santos, o Nelson Preto, representante do assentamento Nova Geração. Ele conta que, desde 2005, a Zattar tem oferecido terras e fez a oferta de 10 mil alqueires; depois, 3 mil alqueires. Mas nada foi aceito pelo governo federal.

Em entrevista à assessoria de imprensa do Sindicato Rural de Guarapuava, o diretor-presidente das Indústrias Zattar, Miguel Zattar Filho, afirmou que esta reintegração de posse é um processo que dura há 20 anos. "Em 2004, as pessoas que estavam nessas terras foram informadas que tinham que sair. Nós, da empresa, esperamos por 13 anos uma ordem do Governador para que esta reintegração fosse executada, já que as pessoas que ocupavam o local se recusaram a sair quando o oficial de justiça apresentou o mandado do juiz. Todos sabiam que isso iria acontecer”.

Segundo Zattar Filho, houve uma tentativa de negociação com o Incra, mas em nenhum momento o órgão aceitou a solução que a empresa ofereceu. “Sempre tivemos interesse na Reforma Agrária e que o Pinhão fosse pacificado na questão fundiária. Em 2006, fizemos uma oferta de 10 mil alqueires para que o Incra comprasse a área, para que estas pessoas pudessem continuar lá. Inclusive cedi aos pedidos da Associação de Famílias de Trabalhadores Rurais do Pinhão (Afatrupi), já que tinha ofertado uma área menor. Mas o Incra não se interessou em comprar nenhum alqueire e a situação não foi solucionada”, explica o diretor presidente.

“Por que o Incra não comprou essas terras? A empresa quer vender”, diz o posseiro João Wilson Narciso, frisando que a manifestação na PR 170 não tem como alvo a Zattar. “A nossa reivindicação é com o Incra”.

Estrada com bloqueio desde quatro da manhã (Cristiano Martinez)

FAMÍLIAS

Com a medida radical de desalojamento de famílias em 290 hectares da Fazenda Alecrim - a Polícia Militar cumpriu a ordem de reintegração autorizada pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), atendendo o pedido da Zattar -, os trabalhadores rurais resolveram tomar a PR 170 na madrugada desta quarta-feira (6). Segundo Nelson Preto, o protesto só terminaria após o contato com o Incra. “Mas com proposta concreta”.

É um bloqueio sem hora para acabar. Mas há a expectativa, segundo a Polícia Rodoviária Estadual, de que ocorra uma liberação do local a partir das 18h de hoje. Por enquanto, sem nenhuma ocorrência grave. Apenas uma fila grande de veículos aguardava a liberação da passagem.

Representante dos posseiros, João Wilson Narciso informa que 14 famílias foram desalojadas de uma localidade na reintegração de posse da última sexta-feira (1º). “Quatorze casas foram demolidas, posto de saúde... enfim, toda uma comunidade foi arrasada”, diz, destacando que outras comunidades idênticas podem passar pela mesma situação.

Ao todo, conforme as contas de Narciso, são mais de 3 mil famílias de trabalhadores rurais sem terra na região de Pinhão. Ele afirma ainda que isso representa 10% da população daquele município. Caso o processo de reintegração continue, será um verdadeiro “caos social” com impacto na economia local. “Os posseiros movimentam a economia de Pinhão”.

O posseiro comenta que a reintegração foi feita de maneira violenta e sem aviso, obrigando agricultores a fazer uma retirada às pressas, com prejuízos a plantações e criação de animais.

POLÍCIA

Na manhã desta quarta-feira, uma viatura de Polícia Rodoviária Estadual conversou com os manifestantes no bloqueio. Segundo os representantes do protesto, não houve negociação para a retirada. Mas os policiais agiram de maneira civilizada e respeitaram o protesto, conforme as informações dos trabalhadores.

 

******Matéria atualizada às 17h de 06/12/2017