Cultura

Lançado em 1974, 'Pilatos' marca momento de ruptura na literatura brasileira

Novo episódio da série semanal do CORREIO, 'Clássico é Clássico', destaca ‘Pilatos’. Romance foi escrito por Carlos Heitor Cony, falecido no último dia 5 de janeiro
Escritor faleceu no dia 5 de janeiro de 2018 (Foto: Divulgação)

A história é bastante curiosa. Com surpresa, homem acorda numa cama de hospital. Ao lado, seu pênis repousa em uma mesa. O personagem fica sabendo que ocorreu um acidente e o membro foi amputado. Após liberado, o desconhecido parte em andanças pelo submundo do Rio de Janeiro, a tiracolo com Herodes (nome que ele deu para seu próprio órgão genital) em um vidro de compota.

Escrita por Carlos Heitor Cony, essa polêmica narrativa foi publicada em 1974 no livro “Pilatos”. Falecido aos 91 anos de idade no último dia 5 de janeiro, no Rio de Janeiro, o autor se notabilizou pela produção extensa de obras literárias (17 romances), dezenas de prêmios e a colaboração como jornalista para os principais jornais e revistas do país. Não por sinal, fazia parte da Academia Brasileira de Letras (ABL).

Ao lado de “O Ventre” (1958) e “Pessach: A travessia” (1967), “Pilatos” é uma das principais obras em sua produtiva carreira. Dentro da tradição do romance brasileiro, esse livro de 1974 é um dos mais importantes da segunda metade do século 20. Não apenas pela narrativa à la Machado de Assis, mas também pelo momento de ruptura.

Depois de “Pilatos”, Cony ficaria 21 anos sem publicar um novo romance. O hiato seria quebrado somente em 1995, com o lançamento de “Quase Memória”, livro de reminiscências do narrador a respeito do pai morto que lhe apareceu em sonho. Clássico e premiado, o romance mistura relato autobiográfico e ficcionalidade.

Mas, voltando ao material de 1974, o escritor fez como o personagem bíblico Pôncio Pilatos e “lavou as mãos”, ou seja, deixou de lado a produção ficcional para entender a sociedade daquele momento. Era um gesto de desilusão com as coisas daquele contexto sociocultural dos anos de 1970.

De certa forma, Cony reproduziu o mesmo clima de crise existencial de seu protagonista/narrador em “Pilatos”. Simbolicamente, a castração do personagem (cujo nome, Álvaro Picadura, aparece uma única vez e não parece ser verdadeiro) representa a perda da iniciativa e do interesse pela ação. Ao longo do livro, o desconhecido passa pela vida como uma espécie de zumbi, sem esboçar interesse pelo o que ocorre a sua volta. É um mero espectador, em um mundo do qual não se sente parte da coisa.

Capa de edição original (Reprodução)

MAL INFORMADOS

O sentimento de inadequação e imobilismo está presente de maneira mais acentuada no título e na epígrafe, que tem o seguinte trecho de uma canção de Paulo Vanzolini (“Samba Erudito”): “Aí, me curvei/Ante a força dos fatos/Lavei minhas mãos/Como Pôncio Pilatos”.

Em suma, a referência ao personagem que “lavou as mãos” diante do julgamento de Jesus Cristo simboliza aceitação e conformismo; mas sem cair na alienação. O personagem principal de “Pilatos” tem consciência de seus problemas e sabe o que está errado. Ele simplesmente “deixa como está”.

Aliás, a percepção dos erros e absurdos da sociedade é um mal que o protagonista da narrativa de Cony precisa levar consigo, como espécie de castigo. Tanto é verdade isso que o livro termina com a constatação lacônica de que as pessoas mal informadas são mais felizes. Ou seja, elas não têm de conviver com a consciência dos problemas.

INFLUÊNCIA

A princípio, o protagonista de “Pilatos” e o próprio autor do livro podem parecer alienados, pois aceitam do jeito que está e seguem a vida de outra maneira. No entanto, em uma leitura mais apurada, isso não se sustenta.

Na verdade, o romance de 1974 faz uma interpretação bastante cáustica e radical do Brasil. Do mesmo modo que o narrador de “Memórias póstumas de Brás Cubas” (1881), de Machado de Assis, o desconhecido e seu vidro de compota desnuda a sociedade a partir de uma visão sarcástica e resignada. Suas andanças lhe permitem conhecer situações absurdas, escatológicas e nonsenses, perdendo toda a sua inocência. Enfim, é um livro sobre a condição humana.

“‘Pilatos’ foi escrito na minha maturidade, eu tinha 42 anos, estava numa fase muito boa e escrevi o livro, que considero uma espécie de fala do trono. Dei uma banana para a literatura. E para a moral, para os bons costumes, para a condição humana. Lavei as mãos”, disse certa vez Cony, em entrevista ao jornal “Folha de S.Paulo”.

Livro forte e experimental, “Pilatos” marcou e definiu a segunda metade do século 20 na literatura brasileira. Foi a “carta-testamento” de Cony até o seu retorno em 1995.

OBRAS

Além de “Pilatos”, Carlos Heitor Cony escreveu ainda outras obras essenciais ao longo de 60 anos de carreira: “O Ventre” (1958), “Informação ao Crucificado” (1961), “Pessach: A travessia” (1967), “Quase Memória” (1995) e “A Casa do Poeta Trágico” (1997).