Guarapuava, 25 de maio de 2019
#curta!

Na última sexta-feira (3 maio), o Ministério da Cidadania celebrou o Dia do Sertanejo

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“Toda vez que viajava pela estrada de Ouro Fino, de longe eu avistava a figura de um menino".

Os versos compostos em 1955 por Luizinho e Teddy Vieira, que hoje povoam as memórias e o imaginário até de quem não viveu em áreas rurais, é uma fiel representante de um personagem essencial para a cultura do País, o sertanejo.

Na última sexta-feira (3 maio), o Ministério da Cidadania celebra a manifestação cultural que se traduziu em costumes e criou um espaço próprio na música brasileira.

Seja a tradicional música caipira ou o sertanejo moderno, com vertentes como o sertanejo universitário e o feminejo – que desafia a supremacia masculina desse universo cultural – o gênero musical típico dos interiores brasileiros ganhou o gosto popular. Embora sejam confundidas como sinônimos, as músicas caipira e sertaneja são consideradas, por alguns especialistas, gêneros completamente distintos.

Entusiasta das violas caipira e de cocho, o mestre violeiro Roberto Correa é um dos principais nomes da música brasileira. Para o músico e pesquisador, o som caipira tradicional é um gênero característico da região Centro-Sul do País, em especial do Brasil central. “Atualmente temos a música caipira do passado, a música tradicional, das duplas e temos a música caipira contemporânea que contempla a música moderna. A música que está se fazendo é muito diversa e interessante, com uma característica importante: é a ligação com a música tradicional, com as raízes da cultura do Brasil”, explicou.

Correa acredita que a música caipira é relevante para o País porque identifica uma região e o instrumento principal desse gênero musical é a viola caipira. “Desde 1960 a viola caipira vem sendo utilizada de diversas formas, em estilos musicais variados e hoje temos uma riqueza muito grande de assuntos, de música instrumental, temática poética”, ressaltou.

MERCADO

Alguns discordam da tese de que a música sertaneja comercial, ou o chamado sertanejo universitário, seja uma evolução natural da música regional, caipira. Volmi Batista, presidente do Clube do Violeiro Caipira de Brasília, acredita que a música sertaneja foi desenvolvida para atender necessidades mercadológicas.

“As músicas comerciais ditas sertanejas não têm nada a ver com o conceito real de sertanejo, é apenas uma apropriação indevida de um ter moda cultura popular brasileira. Não tenho nada contra nenhum gênero musical, mas cada vez mais vejo a necessidade de valorizarmos nossa cultura de raiz”, disse.

Roberto Correa é considerado um dos principais
nomes da música (Foto: Divulgação)

DUPLAS

Os irmãos José das Dores e João Monteiro vieram do município de Passabém, na Zona da Mata Mineira, para Brasília no final dos anos 60. Juntos foram a dupla Zé Mulato (José das Dores) e Cassiano (João Monteiro) e construíram uma sólida carreira musical, que contabiliza mais de 40 anos de estrada, cinco LPs, 14 CDs e um DVD.

Zé Mulato afirma que a luta dos artistas caipiras é preservar uma música que tenha história, poesia, musicalidade e um compromisso com a cultura brasileira, ao contrário dos cantores que optaram por um trabalho mais comercial. “Resolveram usar o ato de cantar em dueto, para cantar qualquer coisa sem dizer coisa nenhuma, e chamaram isso de sertanejo com vergonha de falar caipira. Então, por isso fazemos questão de sermos chamados de caipiras, para não sermos confundidos”.

Na avaliação de Zé Mulato, embora a música sertaneja moderna tenha se identificado de alguma forma com a cultura caipira, os públicos que acompanham cada um dos gêneros não são os mesmos. “Nosso público é bastante fiel, nada de multidões. São pessoas que valorizam mais do lado da poesia, do lado da coisa cultural e que valoriza histórias. Quem é do lado da música mais verdadeira, vamos dizer assim, sempre comparece e quer saber o que foi criado em cima desse segmento, realmente sertanejo”, declarou.

RENOVAÇÃO

O grande desafio da música caipira tradicional tem sido, de acordo com Zé Mulato, o surgimento de novos criadores. “Tem muito jovem cantando bem, mas falta a eles a vivência com a realidade do sertão. Eles sabem mais sobre a vida de outros países do que do Brasil. É a qualidade da mensagem transmitida que fica devendo muito para a realidade”, lamentou.

O cantor caipira alerta para o fato de que mesmo diante da excelência de músicos e cantores do sertanejo comercial, o cenário ainda deve se transformar nos próximos anos. “Eles cresceram demais em volume, mas perderam em qualidade. Somente aqueles que têm amor pelo o que fazem, respeitam o que estão fazendo, irão permanecer. Então a própria vivência da música é uma peneira. Ela vai selecionar quem fica e quem não fica”, concluiu.

DIA DO SERTANEJO

Comemorado todo dia 3 de maio, o Dia do Sertanejo foi instituído a partir da iniciativa da Rádio Aparecida, como uma forma de homenagear os vários violeiros do sertão que frequentavam as missas na Basílica de Nossa Senhora Aparecida, na cidade de Aparecida do Norte, em São Paulo. A música sertaneja é um dos pontos que mais se destaca na cultura dos homens e mulheres que vivem no campo e nas cidades do interior do País. 

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